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‘Não adianta usar minha música só por números’: DAY LIMNS e gigantes da EA e BMG revelam os códigos secretos do storytelling musical na Rio2C

RIO2C. Foto: Daniel Outlander / Portal PopNow

A música, quando aplicada ao audiovisual, é uma força invisível capaz de ditar o ritmo de um coração, provocar lágrimas instantâneas ou eternizar uma cena na cultura pop. Mas o que realmente acontece nos bastidores antes de uma canção chegar à tela de um cinema, a um episódio de streaming ou ao menu principal de um videogame bilionário? Foi exatamente essa a provocação do painel “Os Códigos Secretos da Música no Storytelling”, um dos encontros mais aguardados e profundos da edição da Rio2C. Mediado por Mario Di Poi, sócio e produtor executivo da Input Post, o debate reuniu mentes que operam nos mais altos níveis da indústria: Raphaella Lima (Diretora Global de Música & Marketing da Electronic Arts), Megan Goldstein (VP de Sync Licensing da BMG) e a cantora e compositora DAY LIMNS.

Longe de ser apenas uma discussão burocrática sobre contratos e direitos autorais, o painel mergulhou na intersecção entre a arte pura e as demandas comerciais. O encontro destrinchou como a sincronização musical (o famoso sync) deixou de ser um detalhe de pós-produção para se tornar a espinha dorsal de narrativas multimeios, impulsionando o legado de artistas independentes e consolidando a resistência de novos gêneros em mercados dominados por algoritmos.

DAY LIMNS e a defesa intransigente da verdade artística

Representando a ponta criativa e a voz de quem compõe a obra, DAY LIMNS entregou os momentos mais viscerais do painel. A artista, que tem sido uma das figuras centrais na revitalização do pop-punk e da estética emo no Brasil, falou abertamente sobre o assédio de marcas e produções que buscam apenas engajamento digital, ignorando a mensagem da canção. “Não adianta usar minha música só por números. Se a minha dor, se a minha letra, se o meu grito não fizer sentido com o que o personagem está vivendo na tela, a parceria é vazia. O público de hoje tem um radar muito afiado para o que é plástico e o que é real”, disparou a cantora.

DAY destacou que a resistência do artista alternativo passa por saber dizer não. “Muitas vezes, a gente recebe uma proposta de sincronização que paga muito bem, mas a cena banaliza tudo o que você escreveu. A minha música é o meu diário aberto. Quando eu cedo uma faixa para um filme ou para uma série, eu estou emprestando a minha alma para aquela história. Os diretores precisam entender que a música não é um tapa-buraco de roteiro, ela é um co-protagonista”, explicou. Sua fala ressoou profundamente com os produtores na plateia, sublinhando que o licenciamento bem-sucedido nasce do respeito ao legado emocional do artista.

“Quando a minha música toca em uma cena que capta exatamente a essência da vulnerabilidade que eu estava sentindo no estúdio, a magia acontece. É uma catarse. A pessoa que está jogando ou assistindo não vai apenas ouvir a DAY LIMNS, ela vai sentir o que eu senti. É isso que transforma uma trilha sonora em um legado inesquecível”, completou a cantora, evidenciando o poder da música em criar comunidades apaixonadas ao redor de uma obra.

Electronic Arts (EA): O poder global de lançar tendências

Do outro lado do espectro, operando em uma escala global gigantesca, Raphaella Lima compartilhou os bastidores da curadoria musical na Electronic Arts. Responsável por franquias que definiram gerações, como EA Sports FC (antigo FIFA), Madden NFL e The Sims, Raphaella pontuou que os games se tornaram as maiores plataformas de descoberta musical do mundo. “Nós não estamos apenas colocando uma música de fundo para alguém jogar bola. Nós estamos criando a trilha sonora do ano daquela pessoa. Se o jogador passa 300 horas no menu do nosso jogo, a música que está ali vai ficar tatuada no cérebro dele para o resto da vida”, analisou a executiva.

Raphaella revelou que os “códigos secretos” da EA envolvem uma pesquisa antropológica intensa. “Não escolhemos a faixa porque ela está no topo da Billboard. Muitas vezes, nós quebramos a música para que ela vá para o topo da Billboard. O que nós procuramos é a textura, o BPM, a identidade cultural. Se eu estou fazendo a curadoria de um jogo de futebol de rua, eu preciso do som sujo, do rap que vem da periferia, da batida autêntica. Eu preciso do som da resistência”, detalhou.

A diretora global ainda abordou a complexidade de criar mundos interativos. “Em The Sims, por exemplo, nós fazemos os maiores artistas do planeta regravarem seus maiores hits em ‘Simlish’ (o idioma fictício do jogo). É um trabalho de imersão narrativa brutal. A música precisa existir dentro das leis daquele universo. O storytelling musical nos games é dinâmico; a música reage ao que o jogador faz. Se você está perdendo, a tensão da trilha muda. Se você faz um gol épico, a música explode. O compositor e o artista são verdadeiros designers da emoção”.

BMG e a burocracia que viabiliza a arte

Para que o casamento entre a música de DAY LIMNS e os jogos da EA aconteça, existe uma engrenagem fundamental: as editoras e gravadoras. Megan Goldstein, VP de Sync Licensing da BMG, trouxe luz ao obscuro mundo da liberação de direitos (clearance). “Muitos cineastas chegam até mim com a cena já gravada, apaixonados por uma música específica, mas não fazem ideia de que aquela faixa possui cinco compositores diferentes, herdeiros e um imbróglio de direitos autorais cruzados. O nosso papel é destravar essas correntes”, explicou Megan.

A executiva enfatizou que um bom profissional de Sync não atua apenas como um advogado, mas como um curador estratégico. “A supervisão musical é uma arte. Quando um estúdio de Hollywood me pede uma música sobre ‘superação’, eu não vou mandar os dez hits mais óbvios. Eu vou mergulhar no nosso catálogo e encontrar aquela pérola indie, aquela faixa de um artista emergente que tem o DNA perfeito para a cena. O verdadeiro código secreto do sync é a sinergia. É quando a música eleva a imagem e a imagem eleva a música de forma simbiótica”, disse ela.

Megan também relembrou o impacto avassalador do streaming na ressurreição de catálogos. “Nós vimos o que aconteceu com músicas lançadas nos anos 80 voltando ao topo do Spotify mundial porque tocaram em uma cena crucial de uma série popular. O storytelling moderno não tem prazo de validade. Uma sincronização brilhante pode apresentar um clássico de 40 anos atrás para a Geração Z, reescrevendo o legado de um artista para sempre”.

O orçamento e a engenharia do som: A síntese de Mario Di Poi

Mario Di Poi, mediando o painel com sua vasta experiência em pós-produção na Input Post, conduziu a discussão para um dos pontos de maior atrito no audiovisual: o orçamento. “O maior erro dos produtores audiovisuais é tratar a música como o último item da planilha do Excel”, provocou Mario. “A música não pode ser uma reflexão tardia. Se você gasta todo o seu orçamento em efeitos visuais e chega na pós-produção com trocados para a trilha sonora, o seu projeto vai soar barato, e a emoção da cena vai falhar”.

Ele destacou a importância de integrar os supervisores musicais desde o início do roteiro. “Quando o roteirista está escrevendo a cena do clímax, ele já deve conversar com a equipe de música. O sound design e a música precisam dançar juntos. Não adianta você licenciar uma música caríssima se, na hora da mixagem, ela for atropelada por efeitos sonoros de explosões”, alertou Di Poi, oferecendo uma masterclass prática aos cineastas presentes.

A conclusão: A música como pilar da memória cultural

O encerramento do painel deixou uma mensagem uníssona sobre a resistência e o legado da música no entretenimento. DAY LIMNS reforçou que continuará defendendo a integridade de sua arte, inspirando outros artistas independentes a não venderem suas almas apenas por alcance algorítmico. “Nós, artistas, somos contadores de histórias antes de sermos produtos. A nossa narrativa não está à venda para qualquer um que não saiba ouvir”, decretou a artista.

Raphaella Lima e Megan Goldstein concordaram que as marcas e estúdios que compreendem o peso emocional da música são os que dominam o mercado hoje. “As pessoas esquecem o que o personagem disse, esquecem a cor do carro da cena, mas elas nunca esquecem a música que estava tocando quando o protagonista chorou. A música é o atalho mais rápido para a memória humana”, finalizou Raphaella, arrancando aplausos do auditório da Rio2C.

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Written By

Daniel Outlander é Diretor de Jornalismo do PopNow, speaker e estrategista de comunicação. Com mais de uma década de atuação, fundamenta sua prática em uma sólida formação: detém MBA em Marketing, Branding e Growth (PUC-RS) e é mestrando pela Escola de Negócios Europeus de Barcelona (ENEB). Sua carreira transita entre a gestão de crises e grandes coberturas. Foi assessor de imprensa de megashows como os de Lady Gaga e Madonna no RJ e cobriu os principais festivais do país. Como palestrante, subiu ao palco do Rio Innovation Week e teve seu trabalho reconhecido em duas edições do Digital Awards. Hoje, lidera a redação do PopNow com foco em inovação e crescimento.

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