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Brasil

Entre o Rap e o Pagode: Xamã e Ferrugem falam sobre o poder da narrativa, a poesia de rua e o futuro da música brasileira na Rio2C

O Rio2C esteve tomado por uma atmosfera de reverência e curiosidade. O que aconteceria se você colocasse, lado a lado, dois dos maiores hitmakers da música popular brasileira contemporânea, oriundos da mesma zona periférica do Rio de Janeiro, mas que construíram seus impérios em gêneros musicais historicamente distintos? O painel “A Narrativa da Composição: Xamã e Ferrugem”, mediado com maestria pelo renomado produtor e curador musical Zé Ricardo, entregou exatamente essa resposta. Mais do que um bate-papo sobre acordes e refrões chicletes, o encontro foi uma aula magna sobre sobrevivência artística, o peso sociológico da Zona Oeste carioca na cultura nacional e o poder quase mágico da palavra cantada.

De um lado, Xamã (Geizon Fernandes), o poeta do rap que transformou as batalhas de rima em poesia pop consumida por milhões. Do outro, Ferrugem (Jheison Failde), o romântico inveterado do pagode moderno, cuja voz rasgada e carregada de sentimento redefiniu o gênero na última década. Unidos por uma coincidência cósmica — a semelhança brutal de seus nomes de batismo — os dois artistas provaram que as fronteiras entre o rap e o samba são muito mais fluidas do que a indústria fonográfica insiste em rotular.

As raízes: A Zona Oeste como o grande laboratório de rimas

A conversa começou onde tudo começa: na origem. Zé Ricardo, ao introduzir os convidados, destacou a geografia como o primeiro grande desafio — e a primeira grande inspiração — de ambos os artistas. Campo Grande e os arredores da Zona Oeste do Rio não são apenas panos de fundo, mas personagens vivos nas letras de Ferrugem e Xamã. “Eu brinco sempre que eu sou o cara do interior do Rio, de Campo Grande, onde as coisas demoram um pouco mais para chegar, mas quando chegam, chegam com uma força avassaladora”, pontuou Xamã, refletindo sobre o ecossistema cultural de seu bairro.

Ferrugem, que encontrou na rua o seu primeiro conservatório musical, revelou uma história fascinante e surpreendente sobre como os caminhos dos dois quase se cruzaram muito antes da fama. O pagodeiro trabalhou como vendedor na loja Guadalupe, em um shopping local, e testemunhou em primeira mão os primórdios do movimento de rap que moldaria a carreira de Xamã e de tantos outros talentos. “A gente via a roda de rima de Campo Grande acontecendo. A gente via moleques, como você [Xamã], com o olho brilhando, com sangue nos olhos ali para rimar, para passar a mensagem”, contou Ferrugem, demonstrando um profundo respeito pela cultura hip-hop.

A relação de Ferrugem com o rap vai além da mera observação. O cantor confessou ter sido fortemente influenciado pelo gênero na sua juventude, participando como ouvinte das rodas culturais. “Sempre ouvi rap para caramba, sempre participei ali como ouvinte, aprendendo muito, prestando muita atenção na narrativa. Vocês têm um poder de narrativa incrível”, declarou Ferrugem, voltando-se para Xamã. Essa admiração mútua e o reconhecimento da poesia urbana como uma ferramenta de denúncia e libertação emocional deram o tom de uma conversa que fugiria do roteiro convencional das entrevistas do showbiz.

O peso da narrativa: Escrevendo para não enlouquecer

A composição, segundo os dois artistas, não nasce no estúdio com ar-condicionado e microfones importados; ela nasce na necessidade biológica de vomitar palavras. Zé Ricardo questionou de onde vem a fonte inesgotável para contar tantas histórias. Xamã foi cirúrgico em sua resposta, explicando a diferença fundamental entre a música fabricada para as rádios e a música que pulsa nas ruas.

“O meu lugar no mundo sempre vai ser esse, de um cara que veio de baixo, de Campo Grande, e que a música foi a minha forma de existir. O rap não é sobre o que você tem, o rap é sobre o que você vive. É sobre como a minha mãe lidou com a vida, sobre o trabalhador no trem lotado. A narrativa nasce ali. Se eu não falar sobre isso, eu adoeço”, desabafou Xamã. O rapper enfatizou que a pressão comercial muitas vezes tenta pasteurizar o discurso, mas que a sua responsabilidade com a sua comunidade o obriga a manter os pés no chão. “A gente não compõe porque a gravadora pediu um hit. A gente compõe porque tem um grito entalado na garganta que precisa virar rima”.

Ferrugem, por sua vez, trouxe a perspectiva do romântico. O pagode, historicamente, é o gênero da dor de cotovelo, da paixão inflamada e da celebração da vida nas comunidades. Contudo, o cantor destacou que o seu processo criativo também passou por uma profunda maturação psicológica e espiritual. “Hoje a minha composição é muito ditada pela minha paz de espírito. Quando a gente é mais jovem, a gente escreve muito na revolta, na raiva de um relacionamento que deu errado, na necessidade de provar algo. Hoje eu escrevo para celebrar o que eu construí”, explicou o pagodeiro.

Ele abriu o coração sobre a mudança drástica em seu estilo de vida nos últimos anos, passando a valorizar o ambiente familiar em detrimento da boemia desenfreada. “Para mim, o pagode é sentimento puro, é você conseguir colocar na melodia aquilo que as pessoas comuns não conseguem dizer para a pessoa amada. Mas hoje eu escrevo sobre um amor saudável, sobre a minha família, sobre a estabilidade. Eu percebi que a música precisa curar a gente antes de curar o público”, filosofou Ferrugem.

O encontro das águas: Como o Rap e o Pagode conversam e se alimentam

Um dos momentos mais brilhantes e aprofundados do painel ocorreu quando os artistas e o mediador decidiram quebrar os muros que separam o samba do hip-hop. Na visão de ambos, os gêneros são filhos da mesma mãe: a resistência preta e periférica. O pagode, assim como o rap, sempre foi marginalizado antes de ser assimilado e monetizado pela elite cultural.

Xamã fez uma analogia poderosa sobre a estrutura de uma roda de rima e de uma roda de samba. “A roda de rima é o nosso terreiro moderno. Quando eu estou ali improvisando, eu estou em transe. É a mesma energia da galera ao redor da mesa tocando cavaco e tantã. A diferença é que a gente usa a palavra como percussão, e vocês [pagodeiros] usam a percussão para sustentar a palavra. Mas a raiz é a mesma. O nosso povo preto sempre usou a roda para se curar das porradas da vida”, declarou o rapper, sendo ovacionado pelo público da Rio2C.

Ferrugem concordou integralmente, enfatizando como a estrutura poética do rap tem contaminado positivamente as composições do pagode contemporâneo. Ele elogiou a coragem dos rappers em não mascarar a realidade. “O rap me ensinou a não ter medo de falar as coisas cruas. O pagode às vezes floreia demais o sentimento. O rap vai direto na jugular. Quando eu sento para compor hoje, eu tento trazer essa métrica do rap, essa velocidade da informação, essa riqueza de detalhes que vocês têm. E o Xamã faz o inverso magistralmente: ele coloca melodia e romantismo no rap sem perder a agressividade”, analisou Ferrugem, escancarando a simbiose artística entre os dois.

O papel do compositor fantasma e a indústria de “Fazer Sucesso”

Zé Ricardo introduziu no debate um tema espinhoso e pouquíssimo discutido abertamente na música brasileira: o papel dos compositores de ofício, aqueles que escrevem os maiores sucessos do país e, frequentemente, permanecem no completo anonimato. Ferrugem, que construiu grande parte de sua carreira interpretando magistralmente obras de outros autores antes de se consolidar como compositor ativo, foi enfático ao defender a valorização desses profissionais.

“A galera não tem noção do que é o trabalho de um compositor. Tem cara que escreve dez músicas geniais por semana e anda de ônibus. O mercado muitas vezes esmaga o compositor em favor do intérprete que tem milhões de seguidores”, denunciou o cantor. Ele prosseguiu, quebrando o silêncio sobre a engrenagem fria da indústria atual. “Eu já gravei músicas que não eram minhas e coloquei a minha alma nelas, porque eu me vi naquela história. Mas hoje em dia, as gravadoras e as plataformas exigem música para TikTok, música que dure 15 segundos. A gente tá perdendo a arte de contar uma história com começo, meio e fim por causa de dancinha. A música perde a validade muito rápido”.

Xamã fez coro à denúncia de Ferrugem, mas com o olhar treinado do Hip-Hop, onde a autoria (ou seja, você escrever as próprias rimas) é uma das leis fundamentais da cultura. “No rap, se você não escreve a sua própria letra, você perde o respeito da rua. Mas a gente sabe que no pop e no mercado mainstream o bagulho é louco. A pressão para você lançar três singles por mês é absurda”, pontuou Xamã.

O rapper, que no último ano furou a bolha do rap e invadiu as trilhas sonoras das novelas da Globo, fez uma reflexão sobre como subverter esse algoritmo impiedoso. “O desafio hoje não é viralizar no TikTok. O desafio é você fazer a sua arte sobreviver além de uma semana. Eu não quero compor uma música que as pessoas escutem hoje e esqueçam amanhã. Eu quero compor algo que a molecada de Campo Grande escute daqui a dez anos e fale: ‘Caraca, esse cara tava falando da minha vida’. Isso é o verdadeiro poder da composição. A viralização é um acidente de percurso, não pode ser o objetivo primário”, ensinou Xamã.

Da intuição à estruturação: Como nascem os grandes refrões

Mergulhando fundo nos aspectos técnicos, Zé Ricardo pediu aos artistas que desconstruíssem a anatomia de um sucesso. Afinal, como nasce um refrão que o Brasil inteiro vai cantar? Existe fórmula mágica?

Para Xamã, o processo é essencialmente cinematográfico. O rapper enxerga a música como um roteiro de filme. “Eu costumo falar que eu crio pequenos filmes de três minutos. Eu penso no cenário, nas cores, na iluminação. A letra é o roteiro. O beat (a batida) é a trilha sonora do filme. O refrão é o momento de clímax, é a cena em slow motion onde tudo explode”, ilustrou o poeta urbano. “Quando eu vou escrever um refrão, eu penso na imagem que eu quero que a pessoa tenha na cabeça quando estiver ouvindo no fone de ouvido no ônibus”.

Ferrugem, por sua vez, revelou que o seu processo é mais orgânico e melódico, guiado quase inteiramente pela emoção primária. “No pagode, se a melodia não te pegar no peito nos primeiros dez segundos, a letra pode ser genial que a galera não vai comprar. Eu pego o violão ou o cavaco e começo a balbuciar coisas sem sentido, só buscando a melodia perfeita. Quando eu acho aquela nota que arrepia, eu penso: ‘Qual palavra cabe dentro dessa dor aqui?’ E aí a letra vem”, confidenciou o intérprete.

Zé Ricardo, agindo como o maestro do painel, sintetizou a fala de ambos de maneira impecável: “A mágica da música de vocês está na autenticidade. O Xamã pega a rua e eleva ela a cinema. O Ferrugem pega o amor e transforma ele na dor e na alegria de um estádio lotado. E os dois só fazem isso com tanta maestria porque não se desconectaram da base, da origem. Se desconectar é morrer”.

As “parcerias surreais” e a colaboração no palco

Saindo dos estúdios solitários e entrando no palco, a dinâmica muda. A colaboração musical no Brasil (os famosos feats) tem se tornado a grande moeda de troca da indústria, e os artistas não fugiram do tema. Ferrugem, que construiu projetos históricos como o “Ferrugem em Casa” focado em duetos monumentais do samba, relatou que as melhores parcerias são aquelas que nascem da admiração real e não de uma planilha de marketing da gravadora.

“Quando a gravadora força um ‘feat’ porque os dois artistas estão ‘no hype’, o bagulho soa artificial pra caramba. O público sente na hora. O encaixe de vozes tem que ser verdadeiro. E tem que rolar um respeito no estúdio. Se o cara é genial, mas tem a energia ruim, a música sai torta. A energia fica gravada na voz”, explicou Ferrugem, com a experiência de quem já dividiu o palco com as maiores lendas do pagode nacional.

Xamã endossou o colega e ressaltou que a essência da colaboração é justamente furar bolhas. O rapper lembrou de sua trajetória colaborando com artistas de diversos gêneros, do funk ao pop, da MPB ao sertanejo. “A beleza do Brasil é que a gente não precisa se prender num rótulo só. O gringo não entende quando vê um rapper fazendo música com a cantora sertaneja ou com o cara do pagode. Mas isso é o Brasil. Eu quero poder rimar num beat de funk e no minuto seguinte cantar num acústico MPB. A colaboração é você ceder um pedaço da sua casa pra pessoa decorar e vice-versa”, pontuou Xamã.

Um momento fora da curva: “A Morte” criativa e a reinvenção

O bate-papo enveredou para uma confissão quase terapêutica de ambos os artistas sobre a “síndrome da página em branco”. Ferrugem abordou o pavor constante que assombra compositores e músicos: a estagnação. “Chega uma hora que você se questiona: ‘Será que eu já falei tudo o que eu tinha para falar?’. E o mercado exige que você seja uma máquina de imprimir sucessos. Quando você começa a tentar imitar a si mesmo para agradar o público, você morre artisticamente”, disparou o pagodeiro.

Ferrugem relembrou um momento de sua carreira onde sentiu que estava entrando no automático, fazendo shows repetitivos e não encontrando sentido nas novas músicas que chegavam até ele. A saída? Desligar os motores e focar na base. “A minha família foi o que me salvou de pirar. Eu tive que dar um passo para trás, olhar para a minha esposa, para as minhas filhas, voltar a ouvir os sambas antigos, lá do Cartola, do Fundo de Quintal. Eu precisava limpar a mente do ‘sucesso’ para conseguir voltar a sentir a música”.

Xamã também falou sobre o peso mental de estar no topo e a necessidade de se manter blindado. O rapper comentou sobre a sua experiência interpretativa na TV (atualmente na novela Renascer) e como essa incursão nas artes cênicas ajudou a quebrar seu bloqueio criativo musical. “Atuar me ensinou a compor melhor. Quando você veste a pele de outro personagem, você aprende a olhar o mundo através de outros olhos. Eu comecei a entender que eu posso compor não só sobre o que o Geizon viveu, mas sobre o que outras pessoas vivem. Isso abriu uma torneira absurda na minha mente”, confessou Xamã.

Espiritualidade, Inteligência Artificial e o futuro do mercado

Em tempos onde a tecnologia parece ameaçar substituir a criação humana, a Inteligência Artificial, inevitavelmente, foi um dos pontos finais do debate conduzido por Zé Ricardo. A pergunta era clara: como os compositores clássicos sobreviverão a robôs que escrevem rimas em segundos?

Ferrugem respondeu com uma calma surpreendente. “Eu não tenho medo da IA. O computador pode escrever uma música que rima perfeitamente, mas o computador não sabe o que é chorar na chuva porque tomou um pé na bunda. O computador não sabe o que é você perder a voz de tanto cantar pra vinte mil pessoas. A emoção humana não é matemática. E o público, no fim das contas, busca a emoção e o afeto de outro ser humano”, decretou o cantor.

Xamã corroborou a visão de Ferrugem de maneira afiada. “Eu acho que a tecnologia é ferramenta. A IA vai ser uma ferramenta igual a mesa de som e o microfone. Agora, a alma? O suor da roda de rima de Campo Grande? Isso aí nenhuma máquina codifica. A espiritualidade que rege a criação não pertence ao algoritmo. Como o Ferrugem falou antes, a gente compõe pela paz de espírito, pela nossa cura. O robô não precisa de cura”, ponderou o artista.

Um desfecho arrebatador: “Eu te respeito pra caramba”

Para coroar a tarde inesquecível na Rio2C, o painel caminhou para um encerramento afetuoso. Sem a menor necessidade de rivalidade, Xamã e Ferrugem demonstraram o que há de mais bonito na nova geração da música brasileira: o respeito mútuo. A semelhança dos nomes de batismo (Geizon e Jheison) provou ser muito mais do que uma coincidência fonética; revelou-se um alinhamento cósmico de dois garotos da periferia que conquistaram o Brasil munidos apenas de papel, caneta e verdade.

“Irmão, é uma honra absurda estar aqui do teu lado. Você é um cara que desbravou muita coisa no rap e que leva o nome da nossa Zona Oeste pro mundo com uma postura de muita responsabilidade. Eu sou teu fã. Você é um letrista assustador e um cara genial”, declarou Ferrugem, emocionado.

Xamã retribuiu com a reverência de quem entende o peso da história do colega. “Eu também te admiro profundamente, irmão. O que você faz com a melodia e com a voz no pagode hoje é referência pra todo mundo. Você conseguiu modernizar um gênero secular sem perder a malandragem do samba raiz. A gente saiu do mesmo lugar, passou pelas mesmas paradas difíceis, e hoje estamos aqui conversando sobre a nossa arte numa feira de criatividade global. Isso aqui já é a nossa vitória”, finalizou Xamã.

O auditório explodiu em palmas sob a regência do mediador Zé Ricardo. A Masterclass de composição não ofereceu apostilas com regras fixas de como compor o hit do verão, mas ofereceu algo infinitamente mais valioso: a prova categórica de que a música sobrevive e pulsa muito além dos escritórios das gravadoras multinacionais. Seja em um pandeiro de pagode ou na batida de um rap, a narrativa brasileira resiste. Os Geizons da Zona Oeste do Rio de Janeiro mostraram que o sucesso é o palco, mas a verdadeira composição é, e sempre será, a voz inquebrável da própria rua.

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Written By

Daniel Outlander é Diretor de Jornalismo do PopNow, speaker e estrategista de comunicação. Com mais de uma década de atuação, fundamenta sua prática em uma sólida formação: detém MBA em Marketing, Branding e Growth (PUC-RS) e é mestrando pela Escola de Negócios Europeus de Barcelona (ENEB). Sua carreira transita entre a gestão de crises e grandes coberturas. Foi assessor de imprensa de megashows como os de Lady Gaga e Madonna no RJ e cobriu os principais festivais do país. Como palestrante, subiu ao palco do Rio Innovation Week e teve seu trabalho reconhecido em duas edições do Digital Awards. Hoje, lidera a redação do PopNow com foco em inovação e crescimento.

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