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Opinião

‘Hard and Soft’: A grandiosidade de James Cameron encontra a alma despida de Billie Eilish no cinema

Para entender a magnitude do que é Hard and Soft, o recém-lançado filme-concerto que dominou as salas de cinema neste final de semana, precisamos primeiro dar um passo para trás e observar o fenômeno que o protagoniza. Há menos de uma década, Billie Eilish era apenas uma adolescente gravando “Ocean Eyes” no quarto minúsculo de seu irmão, Finneas. Hoje, aos 24 anos, ela ostenta uma estante que abriga múltiplos Grammys e impressionantes dois Oscars (por 007: Sem Tempo Para Morrer e pelo hino geracional de Barbie, “What Was I Made For?”). Billie não apenas sobreviveu à máquina trituradora da indústria fonográfica; ela a reescreveu. Ela alterou o paradigma do pop hiper-sexualizado e milimetricamente coreografado, provando que o sussurro de uma alma machucada, vestida em roupas oversized, poderia soar mais alto do que qualquer explosão de fogos de artifício em um estádio.

É exatamente por carregar esse peso cultural que o anúncio de que James Cameron dirigiria o registro de sua nova turnê causou tanto estranhamento inicial. Cameron é o arquiteto do gigantismo, o visionário por trás das maiores bilheterias da história, como Titanic e a franquia Avatar. O que a megalomania tecnológica dele teria a ver com a vulnerabilidade crua de Eilish? Ao assistir ao filme nas telas gigantes do IMAX, a resposta me atingiu como uma onda: apenas a lente colossal de Cameron seria capaz de mapear um universo tão complexo e contraditório quanto a mente de Billie.

Um diário aberto projetado em IMAX

Hard and Soft não é um simples empilhado de performances ao vivo intercaladas com gritos de fãs. É um estudo de personagem brutal. O filme utiliza o som ensurdecedor das arenas não apenas para nos fazer vibrar, mas para nos fazer sentir a pressão física e psicológica que a artista suporta. A câmera de Cameron navega pelos bastidores com uma paciência assustadora, encontrando uma Billie que, distante dos holofotes, tenta dar sentido a uma realidade que a isola do resto do mundo.

Em um dos diálogos mais reveladores e cortantes do documentário, Billie fala sobre a discrepância brutal entre ser uma jovem mulher na indústria e o privilégio inerente aos astros masculinos. Por anos, as roupas largas foram seu escudo contra o olhar predatório da mídia. “Eu amava me apresentar mais do que qualquer coisa no mundo”, confessa ela à câmera, com um olhar marejado, “mas eu não me sentia sexy, não me sentia feminina ou confortável mostrando mais do meu corpo.”

A sua aspiração, ironicamente, não era a perfeição das divas do passado, mas a catarse crua do rock e do hip-hop. “Eu só queria a liberdade de ser um cara no palco, sabe? Sem camisa, correndo e pulando como um louco, e a multidão inteira admirando essa única pessoa capaz de fazer a sala inteira pular… Eu nunca tinha visto uma garota fazer isso.” Ouvir essa frase e, logo em seguida, ver Cameron cortar para uma cena onde Billie faz exatas sessenta mil pessoas saírem do chão ao som de “Bad Guy”, é de uma catarse cinematográfica indescritível.

O eco do bullying e o peso do passado

A narrativa do filme é constantemente assombrada pelos fantasmas do passado. Ao som de acordes mais suaves e etéreos, Billie reflete sobre o contraste de ser adorada globalmente enquanto carrega as cicatrizes da rejeição. É impossível não sentir um aperto no peito quando ela compartilha sua verdade sem filtros: “Eu estava passando por um momento muito escuro na minha vida, no ensino fundamental e médio. Estava passando por uma fase muito difícil por causa, sabe, de hormônios e puberdade e tudo mais… Eu sofri muito bullying.”

Essa confissão não soa como uma tática de vitimização programada por assessores de imprensa. Soa como o desabafo de alguém que, ao olhar para a multidão, ainda procura a adolescente assustada que costumava ser. Quando ela murmura que muitas vezes se sente perdida no meio de tudo isso, o público no cinema se encolhe com ela. A música, para Billie, foi um bote salva-vidas que acabou resgatando milhões de outras pessoas ao redor do mundo.

Ocitocina, Serotonina e Cães Resgatados

Contudo, o diretor de Titanic sabe que um filme não se sustenta apenas de tragédia e tensão. Há um calor humano radiante que permeia os bastidores da turnê, e Cameron — que também compartilha de forte ativismo pelas causas naturais — foca nas peculiaridades deliciosas da rotina da artista. Em um momento que arranca risadas carinhosas da plateia, descobrimos o segredo da sanidade da equipe: o quarto dos cachorros.

“Temos um ‘quarto dos cachorrinhos’ para o pessoal relaxar e conseguir um pouco de ocitocina e serotonina”, conta Billie, com os olhos brilhando de alegria. “Eu tenho dois resgatados, minha mãe tem um, meu irmão tem dois resgatados… Múltiplas pessoas da minha equipe adotaram cachorros da nossa turnê.” Essa âncora na compaixão, a preocupação em colaborar com organizações locais de resgate de animais em cada cidade que visitam, humaniza a máquina bilionária do show business e nos lembra de que a empatia é o verdadeiro motor da família Eilish.

A maestrina e seu abismo

Mas é quando o espetáculo atinge seu clímax que entendemos o título do filme. Hard and Soft (Duro e Suave). A “dureza” do concreto do estádio, da batida industrial que treme a tela, e da frieza com que a indústria devora seus ídolos. A “suavidade” é Billie. Uma artista que domina dezenas de milhares de pessoas com a graciosidade de quem conversa na sala de estar.

A montagem de Cameron é espetacular quando foca no controle absoluto que ela tem sobre seus fãs. O áudio do filme captura sua voz rasgando a arena: “Todo mundo no lado direito desta sala, vocês estão bem esta noite? E o pessoal do fundo ali?!” E, na mesma respiração em que comanda a histeria coletiva, ela retorna à sua humildade intrínseca, agradecendo com doçura: “Obrigada por nos dar o privilégio de estarmos aqui… Eu amo vocês!”

Billie faz questão de dividir cada milímetro do sucesso. “Muito obrigada à minha banda incrível bem aqui…”, diz ela, enquanto a câmera de Cameron eterniza os sorrisos de seus colaboradores mais próximos. O contraste entre o desejo cantado nas letras de “I just want to be alone” (Eu só quero ficar sozinha) e a necessidade de sentir o abraço de milhares de estranhos torna este projeto uma das obras mais paradoxais e fascinantes da nossa época.

Veredito

Ao final de quase duas horas de projeção, Hard and Soft se recusa a ser categorizado apenas como um filme musical promocional. É um triunfo documental sobre a solidão no topo do mundo, dirigido por um mestre do cinema que soube silenciar seus próprios instintos explosivos para ouvir o sussurro de uma cantora ferida, genial e incansável. James Cameron nos deu o espetáculo visual que promete; mas foi Billie Eilish quem nos deu sua alma em sacrifício. E o cinema contemporâneo agradece.

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Written By

Daniel Outlander é Diretor de Jornalismo do PopNow, speaker e estrategista de comunicação. Com mais de uma década de atuação, fundamenta sua prática em uma sólida formação: detém MBA em Marketing, Branding e Growth (PUC-RS) e é mestrando pela Escola de Negócios Europeus de Barcelona (ENEB). Sua carreira transita entre a gestão de crises e grandes coberturas. Foi assessor de imprensa de megashows como os de Lady Gaga e Madonna no RJ e cobriu os principais festivais do país. Como palestrante, subiu ao palco do Rio Innovation Week e teve seu trabalho reconhecido em duas edições do Digital Awards. Hoje, lidera a redação do PopNow com foco em inovação e crescimento.

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