Brasil

Anitta celebra a divindade feminina, a ancestralidade e o poder das orixás no Ato III do álbum visual ‘EQUILIBRIVM’

Anitta. Foto: Divulgação / Mar+Vin

A narrativa audiovisual do projeto “EQUILIBRIVM” continua a se desdobrar de forma surpreendente e profunda. Nesta terça-feira (28), a estrela pop brasileira Anitta lança oficialmente “Deus Mãe”, que se consagra como o grandioso terceiro ato da complexa sequência de vídeos musicais do seu novo álbum de estúdio. Embalada por uma estética imersiva e por uma mensagem contundente, a nova superprodução é conduzida por duas faixas fundamentais da obra: “Mandinga” e “Nanã”.

Para dar vida a este capítulo que reflete intensamente sobre a liberdade feminina e a imensurável sabedoria da mais velha das orixás afro-brasileiras, a cantora não está sozinha. O novo ato visual conta com a participação de peso de grandes nomes da música nacional contemporânea: a cantora Marina Sena, o rapper Rincon Sapiência e a talentosa King Saints, que também atuam como colaboradores diretos das canções. Este encontro de gerações, sotaques e estilos culmina em uma obra que promete marcar a videografia da artista carioca.

“‘Deus Mãe’ começa convocando mulheres a romperem suas amarras, ao som de ‘Mandinga’. E termina celebrando a mais antiga e sábia das Yabás, senhora da criação”, reflete Anitta sobre o cerne conceitual deste novo lançamento. A artista faz questão de ressaltar o impacto dual de sua nova aposta, evidenciando que “Essas músicas, juntas, funcionam como um testemunho da força feminina no campo social e também no espiritual”.

Redefinindo o divino: A quebra do eixo patriarcal

Toda a magnitude visual de “Deus Mãe” não seria possível sem uma direção focada e engajada em subverter paradigmas históricos. Nídia Aranha, a brilhante diretora criativa responsável por todo o escopo do projeto “EQUILIBRIVM”, ecoa e amplifica a fala da cantora ao analisar as motivações por trás do audiovisual. Segundo a diretora, o conceito estabelecido propõe uma ruptura audaciosa com as representações tradicionais do sagrado com as quais fomos historicamente condicionados a conviver.

“O terceiro ato desloca a ideia de divindade para além do eixo patriarcal ocidental e propõe uma deidade feminina, geradora de si e do mundo, onde criação e contexto são indissociáveis”, pontua Nídia Aranha. Essa perspectiva coloca a mulher não apenas como musa ou figura secundária na cosmologia do disco, mas sim como a força motriz, autônoma e primeva de toda a criação e organização do universo retratado no álbum.

O manifesto de “Mandinga”: Deixa eu dançar e quebrar as amarras

A música “Mandinga” é a escolhida para abrir esse percurso visual e sonoro de forma arrebatadora. O filme se inicia estabelecendo imediatamente um cenário de dominação opressiva: reis e figuras masculinas de poder dominam os primeiros quadros do audiovisual, atuando como fortes símbolos visuais das antigas estruturas ancestrais de opressão patriarcal. É neste cenário sufocante e limitador que Anitta e sua convidada, Marina Sena, surgem inicialmente presas a essas condições impostas, confinadas de forma dramática em uma gaiola de madeira.

No entanto, essa submissão é efêmera. Ao longo do desenrolar da música, as amarras não conseguem conter a potência das artistas e esses elementos de opressão entram em um colapso catártico, abrindo, assim, espaço vital para que ocorra uma outra organização do mundo. O clipe utiliza um poderoso simbolismo espiritual para representar essa virada: as forças ancestrais iorubá conhecidas como Ìyámi Òṣòròngá são manifestadas na tela sob a elegante e mística forma de três aves que sobrevoam a floresta. São exatamente essas entidades, guardiãs do poder feminino primordial, as grandes responsáveis por quebrar o feitiço que prendia as cantoras. Uma vez libertas de suas prisões de madeira, as artistas passam a trilhar, com firmeza e autonomia, seus próprios caminhos, assumindo o papel de protagonistas absolutas de suas próprias histórias.

O desprezo pelos sistemas que antes as oprimiam é um dos pontos altos da narrativa de “Mandinga”. “Esse desejo de romper com estruturas de poder fica evidente também no final da faixa, quando eu e Marina recusamos o trono antes ocupado pelos reis que nos aprisionavam”, comenta Anitta, detalhando a escolha de rejeitar o poder nos moldes masculinos para, em vez disso, forjar um novo destino.

A mente por trás da viabilização destas imagens, Felipe Britto, sócio-fundador da prestigiada produtora Ginga Pictures e grande responsável pela produção audiovisual do álbum, também compartilha sua visão sobre o desenvolvimento da obra. Ele completa o raciocínio da cantora dizendo que a ideia central do ato foi “construir uma narrativa visual onde as mulheres aparecem inicialmente presas num mundo patriarcal, governado por homens, e de forma natural, quase inevitável, vão quebrando essa mandinga. É a força feminina se libertando por dentro, empoderada e independente, sem precisar pedir licença”.

O feitiço sonoro: A construção musical de “Mandinga”

ANITTA. Foto: Divulgação

Se a imagem transmite libertação, a sonoridade atua como o feitiço que desencadeia essa catarse. A forte narrativa do videoclipe dialoga de maneira impecável com a letra da canção, que foi dividida deliberadamente em duas partes distintas, criando uma evolução rítmica e temática. Na sua primeira metade, Anitta canta envolventemente sobre sedução e conquista. Essa porção da música ganha um peso cultural inestimável com a brilhante inclusão do sample de “Canto de Ossanha”, um clássico absoluto da música popular brasileira composto pelos geniais Vinícius de Moraes e Baden Powell. A escolha deste trecho musical cria instantaneamente um clima de feitiço e mistério na atmosfera da obra. Em seguida, na arrebatadora segunda metade da canção, a voz única de Marina Sena entra em cena e rompe definitivamente esse encanto inicial, transformando a música em um enérgico manifesto de empoderamento feminino.

A reverência à ancestralidade: O barro e a terra em “Nanã”

A catarse de “Mandinga” pavimenta o terreno para um mergulho ainda mais ancestral. A transição ocorre com a faixa “Nanã”, que embala com majestade o segundo momento deste medley visual. A canção evoca diretamente Nanã Buruquê, reverenciada nas religiões de matriz africana como a mais antiga das orixás. Conhecida e respeitada como a grande senhora da criação, dos pântanos e da lama, essa poderosa yabá — nome sagrado dado às divindades femininas dentro da tradição do candomblé — é diretamente associada à sabedoria ancestral. Ela possui o poder de reger o ciclo completo e inexorável da vida, que abrange o nascimento, a morte e a reencarnação. Segundo a tradição, Nanã foi a força primordial capaz de moldar o ser humano a partir do barro.

Para ilustrar essa deidade no audiovisual, a produção optou pelo profundo respeito visual. “A figura de Nanã se materializa lindamente nesse vídeo por meio de uma senhora adornada em lilás e roxo, cores associadas à orixá, esculpindo o mundo com o barro”, explica Anitta, maravilhada com o resultado plástico alcançado. Em uma reflexão provocativa sobre teologia e gênero, a cantora brasileira questiona: “A gente fala de Deus e, para o mundo inteiro, essa figura costuma ser masculina. Mas e a mãe? Quem é? Nanã simboliza a criação do ser humano. Para mim, é muito importante ter uma referência de deusa, porque todos nós viemos de um útero”.

O processo de materializar a grandiosidade da orixá exigiu um cuidado técnico imenso. O produtor Felipe Britto relembra como a equipe abordou a estética dessas passagens do clipe: “A construção visual dessas cenas precisava ter peso, tempo e textura, criando uma atmosfera coerente com esse universo. Trabalhamos a paleta, os elementos naturais e a forma como Anitta se movia e se relacionava com o espaço. O mais importante era que o público sentisse algo, mesmo sem necessariamente conhecer as referências”. O resultado é uma sequência deslumbrante, de fotografia impecável, que consegue ser densa e acessível ao mesmo tempo.

O coro da resistência: A força dos convidados

Um projeto tão ambicioso e enraizado na diversidade brasileira ganhou contornos ainda mais épicos com as escolhas das colaborações. Rincon Sapiência, que empresta o seu talento participando com vocais e também aparece brilhando no audiovisual, é categórico ao celebrar a importância desta parceria. Para o rapper paulistano, o ato de trazer essas referências para a grande mídia é fundamental. “A espiritualidade de matriz africana sempre esteve presente na música brasileira. É importante uma artista do porte dela levar essa linguagem para um grande público hoje”, exalta Rincon.

A excelência de “EQUILIBRIVM” também passa pela mente brilhante de King Saints. Também presente de forma marcante na faixa “Nanã”, a artista reforça a inegável potência que o projeto carrega em seu DNA. “É uma experiência linda, madura e pronta para ganhar o mundo. Está tudo incrível, e só tenho a agradecer por fazer parte de um álbum histórico como ‘EQUILIBRIVM’”, declara King Saints. Além de sua performance inesquecível diante das câmeras e microfones, o talento da artista ecoa por grande parte do disco, uma vez que ela também assina, com maestria, a composição de seis das expressivas 15 faixas que compõem o grandioso álbum.

Moda que conta história: O styling como extensão da narrativa espiritual

Em um projeto em que cada mínimo detalhe visual importa, as roupas deixam de ser apenas vestimentas e passam a atuar como uma segunda pele da própria narrativa. Os figurinos selecionados para “Deus Mãe” não são enfeites, são elementos fundamentais para que a história de ruptura e ancestralidade seja contada corretamente. Na faixa “Mandinga”, por exemplo, destacam-se fortemente as belíssimas e conceituais criações elaboradas pelo estilista paraense Labô Young. Conhecido por seu talento singular, o designer trabalha magistralmente com elementos da terra, como folhas, palhas e sementes, estabelecendo um rico e profundo diálogo com os saberes ancestrais brasileiros. Além das roupas, o estilista também é a mente que assina a confecção das expressivas máscaras que dão rosto e impõem presença às figuras masculinas do clipe.

A relação orgânica com o ambiente é tão forte que, em momentos-chave do audiovisual, Anitta e Marina Sena quase se camuflam por completo na vasta paisagem. Para alcançar este efeito, as artistas desfilaram com looks profundamente inspirados nas “Rainhas das Matas”. Este reverenciado coletivo é formado por mulheres trans e travestis que residem na exuberante Ilha do Marajó, localizada no Pará, e que se tornaram amplamente conhecidas no cenário nacional por suas incríveis produções artísticas e de moda elaboradas exclusivamente com elementos naturais colhidos na floresta, agindo em forte e contínua defesa do meio ambiente.

André Philipe, que atua e co-assina o primoroso trabalho de styling de todo o projeto audiovisual ao lado de Daniel Ueda, compartilha os bastidores e os desafios dessa imersão. Ele comenta sobre a meticulosa integração pensada entre a moda de vanguarda e a natureza crua: “Nos ligamos muito nas cores e no cenário. No look que Anitta usa no rio, por exemplo, as folhas do vestido passam a impressão de se estar acima d’água. A gente se inspirou no Brasil”.

O bloco dedicado a “Nanã” exigiu uma paleta de cores e uma textura completamente diferentes, mas igualmente intencionais e embasadas em pesquisa religiosa e histórica. Sobre esta segunda etapa visual, o stylist detalha as diretrizes adotadas: “Priorizamos tons com fundo roxo e vinho, que remetem à orixá. Os acessórios tinham formas orgânicas, como barro esculpido. Já os tecidos eram naturais, evocando lama, terra e folhas molhadas”, explica de forma detalhada o talentoso André.

Assista ao épico Ato III de EQUILIBRIVM

A dedicação empregada em “Deus Mãe” reafirma o status de Anitta como uma força criativa inabalável, não apenas preocupada com as paradas de sucesso, mas com o legado cultural, o debate social e o enaltecimento das raízes espirituais brasileiras que moldam a nossa nação. A união de visuais cinematográficos inspirados no Candomblé, moda ativista de estilistas paraenses e a voz de gigantes da música transformam o Ato III de “EQUILIBRIVM” em uma peça obrigatória para se compreender o amadurecimento desta estrela sem precedentes.

Assista abaixo ao clipe completo de “Deus Mãe” (Mandinga / Nanã):

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