Encarar um palco de proporções oceânicas como o do Lollapalooza Brasil não é uma tarefa para qualquer um. Quando o artista decide fazer isso absolutamente sozinho — sem banda de apoio visível, sem balé, sem mudanças complexas de cenário —, a coragem beira a audácia. Na noite deste domingo (22), Tyler, The Creator fez exatamente isso. O rapper, produtor e visionário norte-americano subiu ao Palco Budweiser com a difícil missão de encerrar a 13ª edição do festival em São Paulo. Armado apenas com um microfone, efeitos pirotécnicos bem pontuados e um carisma inabalável, ele provou que não precisa de muletas visuais para entregar um espetáculo grandioso, hipnótico e musicalmente impecável.
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A coragem do minimalismo frente à grandiosidade pop

O contraste entre a apresentação de Tyler e os “headliners” dos dias anteriores foi gritante. Enquanto Sabrina Carpenter e Chappell Roan haviam transformado o mesmo espaço em grandiosos espetáculos teatrais, repletos de escadarias, dançarinos e trocas de figurino constantes, o rapper optou por uma estética crua e focada. Vestindo roupas vermelhas e um boné, emulando perfeitamente a identidade visual da era “Don’t Tap The Glass“, era impossível tirar os olhos dele, mesmo para quem acompanhava o show das partes mais distantes de Interlagos.
A sua presença cênica é tão magnética que o palco gigantesco pareceu encolher sob o seu domínio. Tyler caminhou, dançou e suou em bicas de um lado para o outro, preenchendo cada centímetro quadrado do espaço vazio com a sua energia singular. Foi uma aula prática de como a confiança e a musicalidade crua ainda são os pilares de um show inesquecível.
O desafio da concorrência e a conquista do público
A jornada do rapper na noite de domingo começou com um desafio logístico. Quando os primeiros “beats” ecoaram, o gramado do Palco Budweiser ainda não estava em sua capacidade máxima. Parte considerável do público estava migrando após o show catártico de Lorde, no Palco Samsung Galaxy, enquanto outra fatia significativa da geração Z optou por assistir à apresentação simultânea do “girl group” KATSEYE, no Palco Flying Fish. Além disso, o som pesado da música eletrônica vindo do palco vizinho chegou a invadir a experiência acústica nos minutos iniciais.
No entanto, como o mestre de cerimônias experiente que é, Tyler não se deixou abalar. Pelo contrário, ele usou a situação para puxar o público para o seu universo. “Nossa, tem muita gente aqui”, observou ele, após encarar a multidão em silêncio por alguns minutos, admirando o mar de pessoas que acabou se formando à sua frente. Com o desenrolar do show, ele não foi apenas um artista se apresentando para uma plateia; ele se tornou o maestro de uma gigantesca orquestra profana, ordenando que milhares de mãos balançassem no ar, sendo prontamente obedecido sem o menor esforço.
Um passeio pelas eras: De Chromakopia aos primórdios

A primeira parte do espetáculo foi estrategicamente focada em seus dois álbuns mais recentes e aclamados: o denso e experimental “CHROMAKOPIA” (que lhe rendeu o Grammy em 2024 pela identidade visual) e o extremamente dançante “Don’t Tap The Glass“. A transição ao vivo entre obras conceitualmente tão distintas é um atestado da genialidade do artista. Ele é capaz de fazer o público pular ensandecido em faixas agressivas como “Big Poe” e “Sugar On My Tongue“, para, minutos depois, silenciar o autódromo com o rap melancólico e confessional de “Like Him“, onde reflete sobre a dor de crescer sem a presença paterna.
Após garantir que o público atualizasse a memória com as novas faixas, o cantor reconheceu o longo tempo de ausência em solo nacional. Ele não pisava no Brasil desde 2011, quando se apresentou no extinto festival SWU com o seu antigo coletivo, o Odd Future. Ao relembrar a data, ouviu vaias bem-humoradas da plateia, frustrada com o longo hiato. Fiel ao seu estilo ácido e desbocado, Tyler rebateu: “Oi? Vocês estão me vaiando por que não venho desde 2011? Seus idiotas!”. O xingamento, proferido em tom de piada carinhosa, arrancou gargalhadas e estreitou ainda mais a relação com os fãs brasileiros.
Para se redimir do “sumiço”, ele abriu o baú de sucessos. “Desde a última vez que estive aqui, lancei muita coisa legal. E se vocês não se importarem, vou tocar algumas músicas bem antigas”, anunciou. A partir desse momento, o Lollapalooza virou um transe coletivo. Destaques estrondosos ficaram para “TAMALE” (do álbum “Wolf“, de 2013), com o cantor segurando a bandeira do Brasil e improvisando gritos de “São Paulo“, e o peso insano de “Who Dat Boy“, do divisor de águas “Flower Boy“.
Interação irreverente, palavrões e amor à cultura brasileira

A interação de Tyler, The Creator com o público de São Paulo foi um “show” de comédia à parte. Em um determinado momento, ao ouvir o já tradicional coro brasileiro de adoração, ele tentou arriscar um “te amo” em português que saiu um tanto embolado. Ao ser ensinado pela plateia, preferiu adotar o vocabulário das ruas, agradecendo repetidas vezes com um sonoro e cômico “putão, putão”.
O ápice do humor e da desconexão cultural inusitada aconteceu quando a massa começou a gritar “Tyler, gostoso” em ritmo de estádio. Surpreso e divertido, o rapper rapidamente entendeu o significado, abriu um sorriso largo e começou a fazer uma dança sensual e ritmada acompanhando o coro da multidão, rendendo um dos vídeos mais virais do fim de semana.
Porém, por trás das brincadeiras e dos xingamentos afetuosos, existe um profundo respeito e conhecimento musical. Em um momento de maior seriedade, o artista interrompeu as batidas eletrônicas para prestar homenagens. “Tenho mais algumas músicas, mas quero agradecer por todo o amor que vocês estão me dando. Amo música brasileira, Gal Costa, João Gilberto. A cultura de vocês é muito rica. Obrigado demais!”, declarou-se, evidenciando que suas bases artísticas vão muito além das fronteiras do hip-hop norte-americano.
A despedida com “Love Songs” e o triunfo de See You Again
Já próximo ao limite do horário do festival, Tyler avisou que o espetáculo estava chegando ao fim e, novamente, foi vaiado — dessa vez, pelo desejo da multidão de que a festa não acabasse. A solução do maestro foi infalível: metralhar a reta final com seus maiores hinos românticos, as famosas “love songs” distorcidas que definem o seu estilo.
A execução de “EARFQUAKE” foi um momento de entrega total. O autódromo inteiro cantou o refrão aos berros, assumindo o controle da melodia no trecho (“don’t leave / it’s my fault”) enquanto o artista os regia do palco. Na sequência, a energia subiu com “ARE WE STILL FRIENDS?” e o caos controlado de “New Magic Wand“.
O encerramento definitivo aconteceu ao som de “See You Again“, o rap melódico que se tornou um fenômeno global. “São Paulo, Brasil! Eu quero agradecer a vocês do fundo do meu coração. Antes de ir embora para os meus amigos de Los Angeles, quero que vocês cantem comigo mais uma vez”, pediu ele. O coro que ecoou pelo gramado iluminado por leques balançando no ar e efeitos de palco foi arrepiante. “Obrigado, putos!”, disparou ele em sua última despedida, selando a sua passagem pelo país de forma memorável.
Tyler, The Creator encerrou o Lollapalooza Brasil 2026 provando que, no meio de tanta coreografia e superprodução do cenário pop atual, o poder da música crua, da ironia inteligente e do talento absoluto para rimar e conduzir uma multidão ainda são imbatíveis. O show pode não ter tido o maior cenário do festival, mas, artisticamente, foi um dos maiores triunfos que Interlagos já presenciou. Resta torcer para que o hiato de quinze
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