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Lollapalooza

KATSEYE estreia no Brasil com show milimétrico, fofura sintética e a sombra de desfalque no Lollapalooza

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A indústria fonográfica global encontrou a sua mais recente e lucrativa obsessão na fusão cultural entre o Ocidente e a Coreia do Sul. O resultado máximo desse laboratório é o KATSEYE, um “girl group” forjado nos bastidores de um “reality show” (o Dream Academy, de 2023) sob a batuta conjunta das gigantes HYBE e Geffen Records. Vendidas como um projeto “global” por reunir integrantes de diversas nacionalidades, elas desembarcaram no Autódromo de Interlagos na noite deste domingo (22) para provar a força de seus números no Lollapalooza Brasil 2026. Diante de um público massivo — composto majoritariamente por crianças, adolescentes e pais exaustos —, o grupo entregou exatamente o que a embalagem prometia: um espetáculo pop coreografado à exaustão, esteticamente impecável, porém embalado em um verniz robótico que deixa pouco espaço para a verdadeira alma de um festival.

O mistério de Manon e o desafio da formação em quinteto

Antes mesmo dos primeiros acordes ecoarem no Palco Flying Fish, a apresentação já estava envolta em uma nuvem de polêmica e especulação digital. O sexteto original chegou ao Brasil desfalcado de uma de suas integrantes mais populares: Manon. A ausência da cantora, que segundo comunicados oficiais encontra-se em um hiato não detalhado, jogou lenha na fogueira dos rumores sobre supostos boicotes organizados por alas mais tóxicas do “fandom” e possíveis crises internas na gestão do grupo.

Nas redes sociais, a hashtag pedindo explicações sobre o paradeiro da integrante atingiu o topo dos “Trending Topics” mundiais durante a apresentação. No entanto, em cima do palco, o assunto foi tratado com o silêncio ensurdecedor típico das engrenagens do “K-pop”. As cinco integrantes remanescentes — Daniela Avanzini, Lara Raj, Megan Skiendiel, Sophia Laforteza e Yoonchae Jeong — não fizeram qualquer menção à colega ausente, focando exclusivamente em executar um repertório arduamente readaptado para disfarçar o buraco deixado nas complexas formações de dança e nas linhas vocais.

O palco como passarela e a ditadura da coreografia

A estrutura trazida pelo grupo para São Paulo foi surpreendentemente simples. Sem grandes cenários físicos, o KATSEYE apoiou-se em telões exibindo gráficos coloridos, um balé de apoio esporádico e uma fileira de luzes. O verdadeiro show de luzes, no entanto, vinha do próprio grupo. A forma como elas utilizaram o palco foi, de fato, fascinante. Mais do que cantoras acompanhadas de banda, elas comportaram-se como modelos em um editorial de moda vivo, tratando o espaço como uma passarela infinita.

O início de Monster High Fright Song foi um exemplo claro dessa dinâmica. Após a execução da chiclete Internet Girl, o palco ficou vazio por longos e dramáticos segundos. De repente, uma a uma, as integrantes surgiram das extremidades, desfilando, posando para os fotógrafos invisíveis e se insinuando para a plateia. Tudo era executado com uma precisão milimétrica. Quando elas se alinhavam para rebolar até o chão ou fingiam digitar em laptops imaginários, não havia um braço fora do lugar ou um olhar que não estivesse direcionado para a câmera certa.

Essa perfeição, contudo, tem o seu preço. Para os críticos mais exigentes e para o público acostumado com a visceralidade de “headliners” como Tyler, The Creator (que se apresentava no mesmo horário no palco principal), o show pareceu ensaiado demais, sem margem para o erro ou para a espontaneidade. A interação com o público limitou-se a frases de roteiro memorizadas, como o carismático, porém engessado, “e aí, gatinhas”, proferido em português. Faltou improviso, suor genuíno e pulsação — elementos que costumam separar os bons produtos de estúdio das verdadeiras lendas de festival.

Repertório enxuto e o poder hipnótico do TikTok

Comandando a multidão por cerca de 60 minutos, o KATSEYE esbarrou em outro desafio logístico: a falta de uma discografia robusta. Sem um álbum de estúdio completo lançado oficialmente (possuindo apenas EPs e “singles” avulsos), o grupo precisou “enrolar” um pouco para preencher o tempo de apresentação, utilizando longos interlúdios de vídeo, trocas de figurino e pausas estratégicas a cada bloco de três músicas para que pudessem recuperar o fôlego das intensas rotinas de dança.

As letras das canções, criadas sob medida para dialogar com as angústias adolescentes e para viralizarem em desafios de trinta segundos, ressoaram profundamente com a audiência presente. O ápice absoluto do espetáculo ocorreu quando os graves dos super-hits Gabriela e Gnarly anunciaram que a consagração digital havia chegado ao mundo real. Em Gabriela, um interlúdio que misturou dança flamenca com longas saias azuis esvoaçantes hipnotizou a plateia. Já em Gnarly, a faixa mais agressiva e com vocais mais “gritados” do repertório, o Lollapalooza presenciou um festival de coreografias sendo reproduzidas simultaneamente pelo público.

Milhares de crianças e adolescentes levantaram seus celulares e começaram a executar, passo a passo, a mesma dança que as integrantes faziam no palco, reproduzindo o fenômeno do TikTok ao vivo e a cores. O momento provou que, mesmo sendo criticado pela falta de “alma”, o grupo domina com maestria a linguagem de sua própria geração.

Vocaiss rigorosos em um produto feito para exportação

É injusto, no entanto, resumir o KATSEYE apenas a rostos bonitos e danças sincronizadas. Apesar da forte dependência das bases pré-gravadas (“playback”) em momentos de alta exigência aeróbica, as integrantes provaram possuir talento vocal genuíno quando o ritmo permitiu. Lara e Sophia assumiram claramente o protagonismo técnico do quinteto, sustentando notas agudas e demonstrando um rigor vocal que justifica, em parte, as badaladas indicações do grupo ao Grammy 2026 nas categorias de Melhor Artista Revelação e Melhor Performance Pop em Duo ou Grupo.

Durante faixas mais calmas, como I’m Pretty, o grupo tentou quebrar a quarta parede com brincadeiras que envolviam filmar umas às outras com bastões de câmera, transmitindo o resultado diretamente para os telões do festival. A dinâmica adicionou uma camada necessária de leveza e descontração, lembrando a todos que, por trás da máquina bilionária da HYBE, existem jovens na faixa dos vinte e poucos anos tentando se divertir enquanto trabalham.

No balanço final, a estreia do KATSEYE no Lollapalooza Brasil foi o reflexo exato da música pop contemporânea fabricada em laboratório: um produto amarrado com um laço perfeito, altamente eficiente e absurdamente fotogênico, mas desenhado estritamente para a exportação e o consumo rápido. O público alvo — as centenas de crianças que foram à loucura com a trilha sonora de Monster High — saiu de Interlagos extasiado, comprovando que a estratégia comercial das gravadoras foi um acerto retumbante. Resta saber se, no futuro, quando o repertório amadurecer e as polêmicas de bastidores forem resolvidas, as meninas conseguirão romper a barreira do “show arrumadinho” para finalmente entregarem a alma que os grandes palcos exigem.

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Written By

Daniel Outlander é Diretor de Jornalismo do PopNow, speaker e estrategista de comunicação. Com mais de uma década de atuação, fundamenta sua prática em uma sólida formação: detém MBA em Marketing, Branding e Growth (PUC-RS) e é mestrando pela Escola de Negócios Europeus de Barcelona (ENEB). Sua carreira transita entre a gestão de crises e grandes coberturas. Foi assessor de imprensa de megashows como os de Lady Gaga e Madonna no RJ e cobriu os principais festivais do país. Como palestrante, subiu ao palco do Rio Innovation Week e teve seu trabalho reconhecido em duas edições do Digital Awards. Hoje, lidera a redação do PopNow com foco em inovação e crescimento.

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