Rock
Paul McCartney detalha novo álbum em audição íntima, anuncia dueto inédito com Ringo Starr e resgata memórias dos Beatles
Na noite da última quinta-feira (16), Paul McCartney proporcionou uma verdadeira Magical Mystery Tour para um sortudo grupo de 30 fãs em Los Angeles. O eterno Beatle realizou uma audição intimista de seu aguardado novo álbum solo, The Boys of Dungeon Lane, e transformou a sessão em uma roda de histórias inesquecíveis sobre o seu passado, a amizade com John, George e Ringo, e o processo criativo por trás do projeto.
- Anitta abre o jogo sobre os segredos de ‘EQUILIBRIVM’ e manda recado sobre nova era: ‘Fiz o que me deu na telha!’
- 30e anuncia parceria com Maracanã e assume a exclusividade do emblemático estádio para a realização de megashows
- Cleber e João, de Rondônia, gravam DVD com Bruno e Barreto e ampliam projeção nacional com o projeto “Raizão”
O evento aconteceu no estúdio Diamond Dust, comandado pelo aclamado produtor Andrew Watt. O álbum, com lançamento marcado para o dia 29 de maio pela Capitol Records, exala uma atmosfera deliciosamente beatlemaníaca, repleta de ousadias nos tempos musicais, orquestrações e vocais que alternam entre o robusto e o incrivelmente vulnerável.
Watt fez questão de destacar um detalhe impressionante: com exceção dos arranjos de cordas, McCartney tocou absolutamente todos os instrumentos do álbum. “Ninguém mais consegue fazer isso”, elogiou o produtor. Paul, sempre modesto, rebateu: “Algumas pessoas conseguem… mas não muitas”, disse ele com um sorriso de lado.
O encontro com Andrew Watt
O encontro com os fãs (e três jornalistas convidados) durou cerca de 90 minutos. Acompanhado de sua esposa, Nancy Shevell, Paul começou explicando como conheceu Andrew Watt, o superprodutor de 35 anos que já trabalhou com gigantes como Rolling Stones, Elton John, Miley Cyrus e Post Malone.
“Fui tomar uma xícara de chá com ele”, contou Paul. Imediatamente, os dois começaram a tocar juntos no estúdio. “Eu pensei: ‘ok, vamos trabalhar juntos’. Quando o conheci, achei que ele era um pouco insistente. E ele é, mas é isso que você quer em um produtor. Você não quer alguém tímido.”
Durante a reprodução das músicas do seu primeiro trabalho solo desde 2020, Paul acompanhou cada faixa tocando bateria no ar e dublando quase todas as letras. Abaixo, detalhamos o guia faixa a faixa desse mergulho na memória da maior lenda viva do rock.
O Guia Faixa a Faixa de ‘The Boys of Dungeon Lane’
1. A inspiração da infância (e um pedido de desculpas à esposa)
A música que abriu o disco e nasceu no primeiro encontro com Watt foi inspirada na infância de Paul em Liverpool e em uma vizinha. “Eu realmente era a fim de uma garota chamada Jasmine”, contou McCartney, antes de olhar para a sua atual mulher e brincar: “Desculpe, Nancy”. A faixa abre de forma falada e evolui para uma melodia doce com ritmo acelerado, perguntando: “Será que eu passo pela sua cabeça enquanto você está deitada aí?”
2. A fita cassete resgatada
O falecido Eddie Klein, que trabalhou com os Beatles em Abbey Road, encontrou uma demo em cassete que Paul nem lembrava de ter gravado. A produção na Inglaterra tentou replicar exatamente o som da fita original, adicionando mais guitarras depois, em Los Angeles. A faixa traz a forte mensagem nostálgica de que “o tempo faz cada momento contar” e que “você precisa viver o agora”.
3. The Boys of Dungeon Lane (A Faixa-Título)
Lançado como o primeiro single há algumas semanas, é uma carta de amor gentil ao passado. “São as minhas memórias de Liverpool”, disse McCartney. “Dungeon Lane ficava perto de onde eu morava. Eu e George [Harrison] pegávamos o ônibus. Falávamos sobre guitarras e rock ‘n’ roll.” Paul também fez a plateia rir ao dizer que gostava de “observar pássaros” perto do rio Mersey — e esclareceu rapidamente que estava falando de aves reais, e não usando a gíria britânica para “garotas”.
4. Uma homenagem pop para Nancy
Uma canção pop vibrante e cheia de balanço, escrita especialmente para Shevell. Paul alterou a letra da terceira para a segunda pessoa para torná-la mais pessoal. Durante a reprodução no estúdio, ele olhou diretamente para a esposa, cantando silenciosamente: “Eu te amo mais do que jamais amei antes”.
5. A viagem psicodélica
Nesta faixa espacial construída com loops de fita, a voz de McCartney é quase irreconhecível. A letra é cantada da perspectiva de uma jovem garota tendo uma “viagem” (tripping) em um festival de música. É uma canção ousada e experimental que soa como uma prima moderna de “Lucy in the Sky With Diamonds”, explodindo em velocidade psicodélica e guitarras pesadas.
6. Histórias de carona e o “queimão” de George Harrison
A música acústica conta a história real de Paul pegando carona na juventude com Harrison e John Lennon. Ele aproveitou a faixa para compartilhar uma história hilária sobre o dia em que ele e George pegaram carona em um caminhão de leite no País de Gales. “George estava no meio, sentado direto na bateria do caminhão. Ele tinha uma calça jeans com zíper na parte de trás, que conectou com a bateria e deu um choque!”, revelou Paul, contando que Harrison mostrou a cicatriz da queimadura nas costas depois.
Paul também brincou sobre Lennon posar de garoto pobre. “John sempre dizia que era o ‘herói da classe trabalhadora’, mas ele tinha parentes muito ricos! O Ringo, sim, era da classe trabalhadora”, divertiu-se.
7. O resgate do gravador clássico dos Beatles
Uma canção cheia de sentimento que usou tecnologia da velha guarda. Paul revelou que, em 1979, salvou equipamentos valiosos do descarte do Abbey Road Studios, incluindo a máquina de fita Studer de 4 pistas, na qual os Beatles gravaram clássicos absolutos. Ele e Watt compuseram “We Two” apenas para testar e usar o antigo método da banda de comprimir duas pistas em uma. O resultado é um mergulho total no som raiz dos anos 60.
8. O rock de arena
Com pouco a explicar, Paul deixou a música falar por si mesma. “É basicamente um rock. Não há muito a dizer, apenas dê o play”. A faixa fez a plateia bater palmas com a sua levada firme e os versos: “Abra a sua mente / abra o seu coração / nada mais nos manterá separados”.
9. A “Vibe Laurel Canyon” e ecos de Lennon
Tentando capturar a energia do sul da Califórnia dos anos 70, McCartney construiu uma faixa densa que passeia pelo uso de clarinetes. O momento surpreendente foi que a sua interpretação vocal pesada trouxe lembranças instantâneas da voz icônica de John Lennon.
10. O histórico e inédito dueto com Ringo Starr
Os fãs dos Beatles vão enlouquecer com essa faixa de pura nostalgia. A música traz Ringo Starr na bateria e, de forma inédita, dividindo os vocais principais linha por linha com Paul. Mas, como explicou o cantor, quase tudo deu errado por causa de falhas de comunicação. Ringo gravou baterias iniciais, achou que o trabalho estava finalizado e, segundo Paul, “ficou um pouco puto” quando disseram que faltava gravar mais.
Paul escreveu uma música sobre crescerem juntos em Liverpool ao redor daquelas baterias. Quando mandou para Ringo cantar, o baterista cantou apenas no refrão, fazendo Paul achar que o amigo tinha odiado a faixa. Eles finalmente conversaram, Ringo voltou ao estúdio e finalizou a mágica colaboração. “Ringo nunca tinha feito um dueto com um dos Beatles”, celebrou McCartney rindo. A faixa ainda conta com os vocais de apoio de Chrissie Hynde (Pretenders) e Sharleen Spiteri (Texas).
11. A canção do lockdown
Composta durante o confinamento da pandemia, que Paul e Nancy passaram junto da sobrinha dela, o marido e o bebê do casal. A faixa simples surgiu como uma brincadeira genial onde Paul criava melodias suaves e deixava o bebê dedilhar o violão acústico. Uma mensagem doce de esperança para o futuro.
12. Star (A Música de Costa Rica)
Planejando passar o dia de folga da turnê na beira da piscina na Costa Rica, Paul foi impedido por chuvas torrenciais. O resultado? Ele decidiu compor uma música sobre a esperança. “A primeira estrela da noite é sempre especial quando você a vê. Ela sempre me dá um pouco de esperança”.
13. Homenagem à geração dos pais
Uma canção densa e pesada que se abre com o som de trompetes. É extremamente autobiográfica e homenageia o seu pai, James (um “vendedor” e bombeiro durante os ataques alemães da 2ª Guerra Mundial), e a sua mãe, Mary (a “santa” enfermeira e parteira). “Nós nos mudamos para fora de Liverpool e nossos pais garantiram que eu e meu irmão, Mike, ficássemos bem”, disse McCartney sobre a resiliência da geração de seus pais.
14. O final dramático (‘Momma Gets By’)
A faixa de encerramento começa como uma balada de piano e evolui para uma grandiosa orquestra. McCartney esclareceu que a história dramática de uma mãe lutando para alimentar o filho, enquanto o pai (um vagabundo) se droga, é puramente ficcional, feita no mesmo estilo de composição que originou “Lady Madonna”.
“Não se preocupem”
Ao final da grandiosa audição, Paul refletiu que o álbum não possui apenas um tema central dominando todas as músicas, o que o deixou um pouco preocupado no início com a falta de “coesão”. Mas ele rapidamente contornou o seu próprio pensamento: “Então você se lembra dos álbuns dos Beatles. Nós não nos preocupávamos com isso”, finalizou ele com o sorriso imbatível de quem já escreveu a história.
