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‘O Diabo Veste Prada 2’: A reinvenção do glamour e a sobrevivência de Miranda Priestly na era digital

O Diabo Veste Prada 2. Foto: Divulgação

Há exatos vinte anos, o mundo do cinema e da moda era virado do avesso com o lançamento de uma obra que rapidamente se tornaria um pilar absoluto da cultura pop contemporânea. Quando O Diabo Veste Prada chegou aos cinemas em 2006, ele fez muito mais do que apenas nos apresentar aos bastidores cruéis e fascinantes de uma revista de alta costura; ele nos entregou Miranda Priestly, uma das maiores anti-heroínas da história da sétima arte. Desde então, a ideia de uma continuação sempre flutuou por Hollywood como um fantasma sedutor, mas igualmente perigoso. Afinal, como revisitar um clássico intocável sem manchar o seu legado?

Com a estreia de O Diabo Veste Prada 2, que chega aos cinemas neste 1º de maio de 2026, o diretor David Frankel e a roteirista Aline Brosh McKenna respondem a essa temida pergunta com uma dose cavalar de audácia, inteligência e muito, mas muito sarcasmo. Longe de ser apenas um caça-níqueis nostálgico alimentado por referências vazias, esta sequência se prova uma obra madura, sombria e incrivelmente atual, que espelha as angústias do jornalismo moderno e a efemeridade das tendências ditadas por algoritmos.

A sombra de um legado e o apocalipse do papel

A trama de O Diabo Veste Prada 2 acerta em cheio logo em seus primeiros minutos ao se recusar a reciclar a velha dinâmica da “chefe megera contra a assistente ingênua”. Em vez disso, o filme nos joga diretamente no olho do furacão de uma crise corporativa real e palpável: a agonia da mídia impressa. A todo-poderosa Miranda Priestly (Meryl Streep) não está mais lutando para decidir qual cinto turquesa vai na capa da edição de primavera; ela está lutando pela sobrevivência da própria revista Runway.

Os tempos mudaram drasticamente. Os orçamentos editoriais estão encolhendo a cada trimestre, as redações estão sendo substituídas por criadores de conteúdo do TikTok, e o conselho de administração da Elias-Clark (o conglomerado dono da publicação) quer transformar a Runway em um mero portal de e-commerce e fofocas virais. É fascinante ver a narrativa abandonar o glamour intocável de 2006 para abraçar o desespero corporativo de 2026. A revista física, antes considerada a “Bíblia da moda”, agora é vista pelos acionistas mais jovens como um dinossauro caro e obsoleto. E, por tabela, Miranda também é.

Meryl Streep e a vulnerabilidade do poder

O Diabo Vese Prada 2. Foto: Divulgação

Se Meryl Streep já havia entregado uma performance irretocável e digna de Oscar no primeiro filme, o que ela faz nesta sequência é uma verdadeira masterclass de atuação dramática. Miranda Priestly continua gélida, cortante e dona de um olhar capaz de congelar um estagiário a cinquenta metros de distância, mas agora há rachaduras em sua armadura de grife.

Streep consegue transmitir o pânico silencioso de uma mulher brilhante que percebe que o mundo pelo qual ela dedicou sua vida inteira está desmoronando. Há uma cena específica, na sala de reuniões com os acionistas da empresa, que serve como a evolução espiritual do famoso “monólogo do suéter azul cerúleo”. No entanto, em vez de dar uma aula sobre a cadeia de produção da moda, Miranda faz um discurso dilacerante sobre a mercantilização da arte, o apagamento da crítica especializada e o perigo de entregarmos a cultura nas mãos de algoritmos sem alma. É um momento de arrepiar, no qual Streep domina a tela com uma vulnerabilidade contida que humaniza a personagem sem jamais torná-la patética ou fraca.

O embate de titãs: Emily como a nova ameaça

O Diabo Veste Prada 2. Foto: Divulgação

Onde o filme realmente brilha, no entanto, é na brilhante inversão de papéis envolvendo Emily Charlton (Emily Blunt). Se no primeiro filme ela era a assistente eternamente estressada e obcecada por carboidratos que sonhava em ir a Paris, vinte anos depois, Emily é uma gigante. Ela abandonou a Runway anos atrás e agora é uma poderosa e implacável executiva de um conglomerado de luxo rival que está ameaçando comprar a Elias-Clark.

Emily Blunt rouba absolutamente todas as cenas em que aparece. Sua personagem não esqueceu as humilhações do passado e agora detém o poder financeiro para decidir o futuro de sua antiga algoz. O embate entre Blunt e Streep é o verdadeiro coração do filme. Os diálogos entre as duas são como partidas de xadrez jogadas com facas afiadas; repletos de passivo-agressividade, respeito mútuo encoberto e um rancor de duas décadas. Blunt consegue trazer humor ácido, mas também uma frieza corporativa que a torna, de muitas maneiras, a verdadeira herdeira do trono de gelo de Miranda.

A evolução de Andy Sachs e o refúgio de Nigel

O Diabo Vese Prada 2. Foto: Divulgação

A volta de Anne Hathaway como Andy Sachs era o ponto que mais causava apreensão. No final do longa original, Andy joga seu celular na fonte em Paris e vira as costas para aquele mundo tóxico, tornando-se uma jornalista investigativa. Trazer a personagem de volta para as garras de Miranda soaria forçado, mas o roteiro encontra uma saída elegante e crível.

Andy, agora uma respeitada e premiada editora de um grande jornal, é abordada pelo conselho da Elias-Clark para fazer um perfil detalhado — e potencialmente destrutivo — sobre a crise na Runway. Isso a coloca de volta na órbita de Miranda, não como uma subalterna buscando aprovação, mas como uma observadora crítica com o poder de destruir a reputação da revista de vez. A dinâmica entre Hathaway e Streep mudou de “mestre e aluna” para um tenso jogo de gato e rato. Hathaway exibe uma maturidade cênica fantástica, mostrando que Andy ainda carrega cicatrizes de seu tempo na Runway, mas que também absorveu lições valiosas de Miranda sobre sobrevivência corporativa.

Stanley Tucci retorna como o genial diretor de arte Nigel, servindo novamente como a bússola moral do enredo. Nigel representa o amor incondicional pela moda como forma de arte pura. Seu arco narrativo é emocionante, refletindo a exaustão dos criativos tradicionais que são forçados a produzir conteúdo raso para a internet, abdicando da verdadeira estética em prol de likes e métricas de engajamento vazio.

A alta costura como metáfora social

O Diabo Veste Prada 2. Foto: Divulgação

A estética e o design de figurino do filme são, como esperado, impecáveis, mas carregam um peso metafórico inédito. Patricia Field (a mente brilhante por trás dos figurinos do original) parece ter compreendido que a moda de 2026 é baseada em contrastes brutais.

Enquanto Miranda Priestly se veste com peças de arquivo imaculadas, estruturadas e de alfaiataria clássica — simbolizando a tradição, o rigor e a recusa em se curvar às modinhas descartáveis —, as novas antagonistas corporativas e influenciadoras ao seu redor usam o que há de mais barulhento e efêmero nas passarelas atuais. O figurino não é usado apenas para deslumbrar o espectador; ele demarca as trincheiras de uma guerra geracional e cultural.

A trilha sonora: O pulso da passarela

Para envelopar esse thriller corporativo repleto de haute couture, a parte musical recebeu um tratamento de choque de modernidade. A inclusão da estrondosa faixa inédita “Runway”, uma colaboração bombástica entre as estrelas Lady Gaga e Doechii, funciona como o hino não-oficial da obra.

Lançada em um videoclipe dirigido por Parris Goebel, a música transborda a atitude, o deboche e a ferocidade que o filme pede. Durante a película, as batidas de “Runway” são usadas pontualmente em cenas de montagem e transição de tempo, injetando uma energia pop, queer e jovial que contrasta propositalmente com os pesados problemas administrativos enfrentados nos corredores da revista. A faixa une gerações e reafirma que o universo de Miranda Priestly, por mais que esteja em ruínas, continua sendo o ápice absoluto da cultura pop.

Veredito final

O Diabo Veste Prada 2. Foto: Divulgação

Produzir O Diabo Veste Prada 2 era um risco gigantesco. Sequências tardias costumam cair na armadilha de tentar repetir as exatas mesmas piadas e cenários do passado, perdendo o charme que as fez especiais em primeiro lugar. No entanto, ao abraçar o envelhecimento de suas protagonistas e as duras realidades do mercado editorial moderno, o filme se consagra como uma obra rara.

É um filme sobre mulheres poderosas tentando não ser devoradas por um sistema capitalista que elas mesmas ajudaram a criar. É uma reflexão irônica sobre como a excelência artística foi esmagada pela conveniência do conteúdo rápido. Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci provam que a química entre eles não envelheceu um único dia; pelo contrário, amadureceu como um bom vinho de safra rara.

O Diabo ainda veste Prada. Mas, desta vez, ele está pronto para a guerra, sabendo perfeitamente que o verdadeiro vilão não é a moda, mas sim um mundo que desaprendeu a apreciar a beleza autêntica. Corra para os cinemas neste mês de maio e lembre-se: é tudo, menos uma estampa floral para a primavera.

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Written By

Daniel Outlander é Diretor de Jornalismo do PopNow, speaker e estrategista de comunicação. Com mais de uma década de atuação, fundamenta sua prática em uma sólida formação: detém MBA em Marketing, Branding e Growth (PUC-RS) e é mestrando pela Escola de Negócios Europeus de Barcelona (ENEB). Sua carreira transita entre a gestão de crises e grandes coberturas. Foi assessor de imprensa de megashows como os de Lady Gaga e Madonna no RJ e cobriu os principais festivais do país. Como palestrante, subiu ao palco do Rio Innovation Week e teve seu trabalho reconhecido em duas edições do Digital Awards. Hoje, lidera a redação do PopNow com foco em inovação e crescimento.

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