Lollapalooza

Lorde se despe de amarras e faz show mais visceral do Lollapalooza Brasil 2026

Lorde. Foto: Divulgação/ Lollapalooza

Existem artistas que sobem ao palco para entreter, e existem artistas que sobem ao palco para sangrar, metaforicamente, diante de seu público. Na noite deste domingo (22), o Lollapalooza Brasil 2026 foi testemunha ocular da segunda categoria. Ao assumir o comando de uma das maiores multidões já registradas em um palco secundário do festival, a neozelandesa Lorde não entregou apenas um show de encerramento; ela conduziu um exorcismo físico e emocional. Trazendo a aclamada Ultrasound Tour para o Autódromo de Interlagos, a cantora de 29 anos desconstruiu a própria imagem, tirou a roupa, suou, chorou e provou por que continua sendo uma das vozes mais influentes, inquietas e fascinantes de sua geração.

A relação de Lorde com o público brasileiro é pautada por uma evolução mútua e constante. Os fãs que se espremeram na grade neste fim de semana são, em grande parte, os mesmos que a acompanharam desde o início. Eles a viram em 2014, como a adolescente gótica e deslocada da era Pure Heroine; em 2018, sentiram a angústia dramática e colorida do Melodrama; e, mais recentemente, no Primavera Sound 2022, absorveram a psicodelia solar e reflexiva de Solar Power. Agora, para promover o seu mais recente e aclamado disco, Virgin, ela retornou transmutada. A garota que antes cantava sobre a realeza dos subúrbios deu lugar a uma mulher adulta explorando os limites de seu próprio corpo e sanidade em um mundo cada vez mais sintético.

O conceito de Virgin: A fusão entre o orgânico e o cibernético

Quem esperava os cenários grandiosos e iluminados da última turnê foi imediatamente arrebatado por um choque estético. A cenografia da Ultrasound Tour é brutalista, fria e minimalista, projetada para destacar a vulnerabilidade da artista. Vestindo inicialmente uma camiseta rasgada e uma calça jeans de aparência gasta, Lorde parecia uma sobrevivente de um colapso digital. O conceito central de seu novo trabalho baseia-se exatamente nessa tensão: a fricção constante entre os sintetizadores pesados e as letras profundas sobre a fisicalidade humana, a carne e a máquina.

Esse embate visual ficou evidente logo nos primeiros atos do espetáculo. Durante a execução da densa e pulsante Hammer, a cantora surgiu utilizando óculos futuristas que emitiam feixes de luz direcionados à plateia. Movimentando-se de forma espasmódica, ela parecia um híbrido de ser humano e inteligência artificial, um alienígena tentando compreender os próprios sentimentos. “Vocês não vão sair daqui enquanto não forem uma pilha no chão”, declarou ela, com uma voz distorcida, estabelecendo um pacto de entrega total com os mais de 60 mil fãs que lotavam o espaço.

A visceralidade no palco: Do desnudamento físico ao colapso coreografado

O ápice da visceralidade do espetáculo ocorreu de forma gradual, transformando o corpo da própria cantora na tela principal de sua arte. Diferente da sexualização plástica comum na música pop, o desnudamento de Lorde foi cru, quase performático e intimidador. Durante a execução da faixa Current Affairs, de batida abafada e atmosfera sensual, a artista começou a retirar suas roupas de forma caótica, permanecendo apenas com a camiseta e uma espécie de cueca boxer esportiva. O ato não soou como um apelo comercial, mas como um grito de libertação contra as amarras estéticas da indústria.

A desconstrução corporal atingiu o seu limite na impactante Man Of The Year. Em uma performance que flertou diretamente com a “body art”, Lorde utilizou fita adesiva prateada (silver tape) para cobrir os próprios seios, movendo-se pelo palco com uma agressividade contida que deixou o público em um transe absoluto. A imagem da estrela pop desfeita, colada por fitas industriais e cantando a plenos pulmões sob luzes estroboscópicas brancas, cravou-se como uma das cenas mais icônicas e perturbadoras de todas as edições do Lollapalooza Brasil.

A genialidade da Ultrasound Tour também reside na capacidade da cantora de reciclar o seu próprio catálogo sob essa nova ótica sombria e industrial. Músicas antigas ganharam arranjos irreconhecíveis e apresentações angustiantes. Em Buzzcut Season, por exemplo, ela cantou os versos diretamente para as pás giratórias de um ventilador industrial, enquanto uma câmera a filmava por trás de grades de metal, projetando nos telões a imagem de uma mulher enjaulada pelas próprias memórias. Em Supercut, a energia tomou uma forma desesperadora quando a artista correu freneticamente sobre uma esteira ergométrica montada no centro do palco, simbolizando a corrida exaustiva e sem fim contra as lembranças de um relacionamento que não existe mais.

O diálogo com o tempo: A irmã mais velha de uma geração

Apesar de toda a couraça eletrônica e conceitual do novo show, a essência confessional que fez o mundo se apaixonar por Ella Yelich-O’Connor (seu nome de batismo) permanece intacta. Em um dos momentos mais silenciosos e emocionantes da noite, a cantora sentou-se na beirada do palco e olhou fixamente para o mar de pessoas à sua frente. A agressividade deu lugar à ternura de quem reconhece os seus pares.

“Eu não consigo acreditar. Estou muito, muito grata por estar aqui em São Paulo. Obrigada. Olha isso!”, começou ela, observando a imensidão. “Eu gosto de tocar em festivais por isso, tanta gente reunida para ver tanta gente diferente. Alguns para ver o Tyler, outros para Turnstile e Addison. Mas eu ainda consigo lembrar da última vez que estive aqui no Lolla. Eu tinha vinte e poucos anos, tinha acabado de lançar o álbum Melodrama e eu estava apavorada”, revelou a estrela, em um tom de voz embargado.

O discurso transformou-se em uma carta de amor ao amadurecimento coletivo. “Eu estava confusa, tinha medo de multidões como essa. Agora eu tenho 29 anos e sinto que me tornei uma irmã mais velha para alguns de vocês. Nós todos crescemos juntos, não é? Queria dizer que eu tenho muito medo do mundo onde vivemos hoje, é tão diferente de quando eu tinha 20 anos. Eu olho para trás e não o reconheço mais. Mas, quando eu vejo pessoas como vocês reunidas aqui hoje, eu tenho esperança”, finalizou, secando as lágrimas. A declaração foi o estopim para a execução de Liability, que transformou a pista de Interlagos em um imenso e cintilante coral iluminado pelas lanternas dos celulares, com milhares de jovens chorando junto à sua “irmã mais velha”.

A catarse pop: Hinos atemporais e a conexão final

Para garantir que ninguém saísse do autódromo ileso, a reta final do show foi desenhada para extrair a última gota de energia de um público que já estava exausto após três dias de festival. Como uma maestrina do caos, Lorde convocou a plateia para a faixa What Was That, o agressivo primeiro “single” do álbum Virgin. “São Paulo, agora eu quero vocês cantando muito alto! Vocês estão comigo nessa?”, ordenou. A resposta foi um rugido ensurdecedor que fez o chão tremer.

Mas o triunfo absoluto ocorreu com a indefectível Green Light. A música, que há anos serve como o hino de libertação da artista, foi performada com uma urgência palpável. Livres das amarras, tanto a cantora quanto os fãs pularam de forma descontrolada, criando uma nuvem de poeira e suor que encapsulou perfeitamente o espírito de catarse que a neozelandesa prometera no início da noite.

Se o show começou com a artista tirando a roupa para expor as próprias cicatrizes, o encerramento foi marcado pelo acolhimento. Lorde retornou ao palco vestindo um pesado moletom coberto por luzes de LED brilhantes. O figurino, que remetia a um abraço digital, serviu como a armadura perfeita para a última música da noite. “Tenho mais uma música para vocês agora. É uma das minhas músicas mais antigas e mais queridas. Eu quero que vocês cantem o mais alto possível!”, pediu.

Ao som dos acordes melancólicos de Ribs, um retrato perfeito sobre o medo de envelhecer que ela compôs aos 16 anos, a cantora desceu do palco. Ignorando parcialmente os protocolos de segurança, ela caminhou em direção à grade, entregando-se aos abraços, toques e rostos marejados da primeira fila. Era a fusão final e mais potente da noite: a estrela global e os seus devotos, separados apenas pelo metal da barricada, mas unidos por uma década de trilha sonora emocional compartilhada.

“Obrigada, São Paulo! Vocês são lindos”, despediu-se, desaparecendo na escuridão do palco. Lorde é, inegavelmente, um camaleão raro na indústria fonográfica. Ela não se apoia em fórmulas fáceis, não repete as próprias eras e recusa-se a entregar um espetáculo mastigado. A Ultrasound Tour é densa, difícil, esquisita e maravilhosamente crua. Ao desnudar a sua alma (e o seu corpo) sob as luzes impiedosas de Interlagos, a artista reafirmou o seu lugar não apenas no topo dos “line-ups”, mas no panteão das figuras mais importantes e viscerais da música pop contemporânea. O festival acabou, mas o impacto do que Lorde fez ali continuará reverberando por muito tempo.

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