Existe um conselho valioso, frequentemente repetido por curadores de eventos e críticos musicais: vá a um grande festival não apenas para ver os seus ídolos já consagrados, mas com o coração aberto para ser surpreendido por artistas que você ainda não conhece a fundo. Na noite deste sábado (21), no Autódromo de Interlagos, o cantor e compositor escocês Lewis Capaldi materializou essa máxima da forma mais bela possível. Em sua estreia absoluta no Brasil, o artista de 29 anos subiu ao Palco Budweiser do Lollapalooza Brasil 2026 não apenas para executar um repertório musical, mas para celebrar a própria sobrevivência diante de uma multidão que o acolheu com um calor tipicamente brasileiro.
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A missão de Capaldi na grade de programação não era das mais simples. Ele foi escalado para se apresentar imediatamente antes de Chappell Roan, o atual fenômeno do pop teatral que arrastou dezenas de milhares de fãs dedicados para a grade desde a abertura dos portões. No entanto, o que poderia ser um ambiente de impaciência transformou-se em uma demonstração emocionante de empatia. Os fãs da estrela pop abraçaram o escocês de forma incondicional, criando um coro uníssono que ecoou por todo o autódromo e evidenciando que a música, em sua forma mais vulnerável, é capaz de derrubar qualquer barreira de gênero ou nicho.
O fantasma de Glastonbury e a corajosa pausa de dois anos
Para compreender a magnitude e o peso emocional da apresentação de Lewis Capaldi em São Paulo, é fundamental revisitar o capítulo mais desafiador de sua trajetória recente. O artista é portador da Síndrome de Tourette, um transtorno neurológico crônico que causa tiques motores e vocais involuntários. Em junho de 2023, durante um show no lendário Festival de Glastonbury, na Inglaterra, o cantor sofreu uma crise severa no palco. Impossibilitado de controlar os movimentos e de terminar de cantar o seu maior sucesso, “Someone You Loved“, ele foi amparado por um coro de mais de 100 mil pessoas, que assumiram os vocais em um dos momentos mais virais e comoventes da história recente da música.
Apesar da demonstração de amor do público inglês, o episódio foi um ponto de ruptura. Imediatamente após o festival, Capaldi anunciou uma pausa por tempo indeterminado em sua carreira, cancelando turnês e compromissos promocionais. A decisão ocorreu logo após o lançamento de seu aclamado álbum “Broken by Desire to Be Heavenly Sent” e do revelador documentário da Netflix, “Lewis Capaldi: How I’m Feeling Now“, no qual ele já expunha sua frágil saúde mental, crises de ansiedade severas e a pressão do estrelato.
Durante quase dois anos, o silêncio imperou. O escocês mergulhou em um intenso processo de autocuidado, buscando tratamentos paliativos para a síndrome — que não tem cura —, incluindo terapia intensiva, uso de medicamentos específicos e injeções de toxina botulínica para tentar conter as contrações musculares mais agressivas. O retorno aos palcos ocorreu de forma gradual e cautelosa no final de 2025, impulsionado pelo lançamento do introspectivo EP “Survive“, um projeto que funciona como um diário aberto sobre a sua batalha para retomar o controle da própria vida e da sua arte.
Minimalismo estético e o impacto do pós-britpop

No universo dos grandes festivais atuais, dominados por pirotecnia, telões de altíssima resolução com inteligência artificial, figurinos extravagantes e balés perfeitamente ensaiados, o show de Lewis Capaldi é um ato de resistência estética. Ele não usa cenários elaborados, trocas de roupa ou fantasias. Sua apresentação no Lollapalooza 2026 contou apenas com sua excelente banda de apoio e telões que, na maior parte do tempo, limitavam-se a transmitir a imagem dele e de seus músicos tocando.
Essa crueza visual obriga o público a focar no que realmente importa: a música. E, nesse quesito, o cantor entregou um espetáculo de pós-britpop emocionado e romântico, com um som incrivelmente bem equalizado e arranjos minimalistas que favorecem a potência rasgada de sua voz. A melancolia de suas composições inevitavelmente atrai comparações com o início da carreira de bandas como o Coldplay, oferecendo o que há de melhor no pop voltado para os corações partidos e para a introspecção.
O humor como escudo e a conexão com o Brasil
Se as músicas de Capaldi são desenhadas para arrancar lágrimas, sua postura no palco é voltada para garantir gargalhadas. A dinâmica do show é fascinante: o artista é capaz de entregar uma performance dilacerante ao piano e, trinta segundos depois, fazer uma piada autodepreciativa digna de um show de “stand-up comedy”. Essa dualidade quebra a solenidade excessiva que poderia pairar sobre uma apresentação focada em baladas melancólicas.
“É minha primeira vez no Brasil, então esse tanto de gente aqui é demais. Para quem não sabe, meu show só tem baladas. Então, eu vou cantá-las e daí caio fora”, avisou ele logo no início, arrancando risos da multidão. O cantor também fez questão de interagir com o público que aguardava as atrações seguintes, brincando que ele próprio também queria muito assistir ao show de Chappell Roan. A resposta dos brasileiros foi imediata e calorosa. Gritos constantes de “Lewis, eu te amo” interrompiam o artista a todo momento, enquanto uma chuva de leques — acessório oficial da atual edição do festival — era batida em sincronia para celebrar o escocês.
Lágrimas no piano: Os ápices emocionais do repertório

O roteiro escolhido para a estreia brasileira refletiu o momento de maturidade e aceitação do artista, mesclando sucessos absolutos das rádios comerciais com as faixas confessionais de sua nova era. O show foi inaugurado de forma emblemática com “Survive“, a faixa-título de seu EP de retorno. Versos como “Juro por Deus que eu vou sobreviver / E se isso me matar / Vou me levantar e tentar novamente” soaram não apenas como uma introdução musical, mas como um manifesto pessoal que ditou o tom da apresentação.

O grande ponto de inflexão emocional da noite ocorreu durante a performance de “The Day That I Die“, também de seu trabalho de 2025. Antes de se sentar ao piano, Capaldi decidiu abrir o coração de forma profunda com a plateia paulistana. Visivelmente tocado pelo mar de pessoas à sua frente, ele relatou que a pausa iniciada em 2023 foi uma questão de sobrevivência mental e física. O cantor confessou que, durante os momentos mais obscuros de seu tratamento, chegou a acreditar genuinamente que nunca mais teria condições de subir em um palco ou de enfrentar uma multidão novamente. “Tive que dar um tempo, não estava com uma boa saúde mental. Estar aqui hoje é algo que eu achei que não faria mais. Então, muito obrigado a vocês e ao Lollapalooza. Essa música é desse período em que eu não estava nada bem”, explicou, sob aplausos ensurdecedores.
A execução da faixa, onde um arranjo de piano melancólico duela com “riffs” de guitarra atmosféricos, silenciou o autódromo. A letra, que funciona como uma carta aberta deixada para seus entes queridos (“No dia que eu morrer / Diga à minha mãe que eu estava sorrindo”), evidenciou as sombras que o artista precisou enfrentar para, finalmente, conseguir estar ali, celebrando a vida e a música no calor dos trópicos.
O clímax com “Someone You Loved” e a redenção definitiva
Para além dos momentos de desabafo e confissão, o show entregou o que o público geral mais esperava: os super-hits globais. Faixas como “Before You Go“, “Forget Me” e “Bruises” foram acompanhadas por coros imensos, provando a força do artista nas grandes rádios de perfil adulto-contemporâneo. Nesses momentos, Capaldi sequer precisava se esforçar; bastava afastar o microfone do rosto para ouvir dezenas de milhares de vozes brasileiras assumindo o controle da melodia.
No entanto, o encerramento estava inevitavelmente reservado para a música porta de entrada de sua carreira. “Someone You Loved“, a balada arrasadora que o colocou no mapa do estrelato global em 2019, ecoou pela noite paulistana de maneira catártica. Foi impossível não traçar um paralelo entre a execução da faixa no Brasil e o fatídico episódio de Glastonbury. Se, na Inglaterra, o público cantou para amparar um artista que estava fisicamente sucumbindo à sua condição neurológica, em São Paulo, a multidão cantou junto a um artista vitorioso. O eco coletivo não foi um bote de salvação, mas sim uma celebração de triunfo. Lewis Capaldi estava no controle, pleno, sorridente e entregando agudos impecáveis.
A apresentação do músico escocês no Lollapalooza Brasil 2026 transcendeu o conceito de um simples show de festival. Foi uma aula sobre a importância de respeitar os próprios limites, de tratar a saúde mental com a seriedade necessária e de encontrar no público não apenas consumidores, mas aliados. Ao transformar suas dores, seus tiques nervosos e sua ansiedade em arte honesta e bom humor irônico, Capaldi provou que a verdadeira força de um ídolo pop contemporâneo reside em sua humanidade inegociável. Para quem obedeceu à recomendação de assistir a um artista fora de sua bolha de conforto, a recompensa foi presenciar um dos recomeços mais belos e sinceros da música atual.
Confira o setlist completo de Lewis Capaldi no Lolla BR:
- “Survive”
- “Grace”
- “Heavenly Kind of State of Mind”
- “Forever”
- “Bruises”
- “Pointless”
- “Something in the Heavens”
- “Hold Me While You Wait”
- “Forget Me”
- “The Day That I Die”
- “Before You Go”
- “Someone You Loved”
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