Se você acha que as situações bizarras e os romances inesquecíveis vividos por Ross, Rachel, Chandler, Monica, Joey e Phoebe nasceram em um ambiente de paz e calmaria, prepare-se para ter suas ilusões destruídas. Durante um painel explosivo na Rio2C, Adam Chase, ex-roteirista e produtor executivo que esteve na linha de frente de Friends desde o segundo episódio, abriu a caixa-preta da comédia mais amada da televisão.
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Em sua primeira visita ao Brasil — onde confessou ter pulado de parapente porque “o pessoal da produção adora, você pode morrer” —, Chase entregou um verdadeiro arsenal de confidências. Entre brigas homéricas na sala de roteiristas e humilhações da vida real que viraram piada global, ele provou que o humor genial é, quase sempre, fruto do caos.
A Guerra Fria: O romance de Chandler e Monica quase não aconteceu
O que hoje é considerado um dos casais mais icônicos e estáveis da cultura pop foi motivo de um verdadeiro racha nos bastidores. A série havia sido desenhada para ter Ross e Rachel como o coração romântico definitivo. Quando a ideia de unir Chandler e Monica surgiu, a equipe de roteiristas entrou em guerra.
“Nós discutimos sobre isso por um ano. Tinha pessoas em pé de cada lado da mesa gritando umas com as outras. Algumas pessoas achavam que o máximo que poderíamos fazer com isso eram três episódios. ‘E não é meio que se vender ou uma saída fácil simplesmente juntar mais dois do grupo?'”
A salvação da trama? A fofoca e a neurose. “Alguém surgiu com a ideia de que eles iriam querer manter isso em segredo. Porque eles eram tão neuróticos, ficariam preocupados que isso arruinasse a dinâmica do grupo… Assim que isso surgiu, todo mundo disse: ‘Ah, isso te dá uma temporada inteira de histórias!'”. A genialidade se estendeu até o fim do arco, definindo que o grupo descobriria “um por um”, deixando o ápice do choque para Ross, que veria tudo pela janela do “Cara Feio Pelado” (Ugly Naked Guy).
A humilhação real por trás da calça de couro de Ross
Para o delírio do público, Chase assumiu a culpa por um dos momentos mais agoniantes da vida amorosa de Ross Geller: o encontro no qual ele fica preso no banheiro, usando talco e loção, tentando colocar de volta uma calça de couro apertada. A inspiração era ele próprio.
“Uma vez, em 1997, uma mulher muito atraente me convenceu a comprar calças de couro muito caras. Foi um erro terrível, eu nunca mais as usei. Eu contei para todo mundo [na sala de roteiristas] que tinha sido convencido a comprar as calças, e fui zombado por umas três horas… Então nós demos as calças de couro para o Ross!”
A teimosia também era uma ferramenta essencial na criação das falas. Relembrando a lendária cena do “Pivot!” (Gire!), onde Ross grita sem parar tentando subir um sofá pela escada, Chase revelou sua dúvida inicial: “Eu lembro de pensar: ‘Eu não acho que uma palavra só possa sustentar uma cena inteira’. Mas ele [outro escritor] simplesmente continuou dizendo isso de novo, e de novo, e de novo… e quanto mais ele dizia, mais engraçado ficava!”.
A Sala de Roteiristas como um “Game Show” insano
Chase tinha apenas 23 anos quando entrou para o time, uma escolha proposital dos criadores Marta Kauffman e David Crane, que queriam roteiristas vivendo as mesmas angústias da juventude de seus personagens. No entanto, trabalhar em *Friends* não era relaxante; era um ambiente implacável de competição criativa.
“Estar em uma sala de roteiristas é meio que um game show esquisito”, definiu Chase. “É como tentar dizer a coisa mais engraçada o mais rápido possível. Como tentar resolver o problema mais rápido que qualquer outra pessoa na sala”.
Eles chegaram a cortar personagens inteiros que não funcionavam, como um exigido pela emissora (a NBC) no início do show. A rede estava apavorada com a ideia de uma série apenas com jovens, então sugeriu “Stan, o Policial”. “Ele era um cara que patrulhava as ruas há décadas e estava irritado porque agora havia uma cafeteria com cappuccinos… A piada dele era: ‘Por que vocês não chamam só de café?’. Não funcionou, era horrível”, disparou Chase aos risos, lembrando como “mataram” a ideia rapidamente.
O Veredito sobre a IA: “Nunca vi escrever uma piada engraçada”
Para um mestre em extrair graça das falhas humanas, a ideia de delegar o humor a robôs soa não apenas absurda, mas sem sentido. Adam Chase foi enfático ao analisar o avanço da Inteligência Artificial no audiovisual.
“Eu nunca vi a IA escrever uma piada que eu achasse engraçada. A IA é inerentemente voltada para trás… ela apenas aspira tudo o que já aconteceu e cospe uma cópia pálida de volta para você.”
“É uma ferramenta que um ser humano criativo, com alma, deveria estar usando… mas eu não consigo imaginar o desejo de ver algo que foi puramente escrito por IA”, concluiu. Para Chase, a lição que *Friends* deixa para as novas gerações de criadores é nítida: a comédia que se torna um fenômeno cultural e sobrevive ao teste do tempo não obedece a algoritmos. Ela nasce da ousadia de gritar na sala de reuniões, da vulnerabilidade e, claro, da coragem de assumir os próprios desastres.
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