Se você rola o feed do Instagram ou do TikTok com frequência, é praticamente impossível não ter cruzado com o sotaque charmoso e as observações afiadas de Paul Cabannes. O humorista francês, que escolheu o Brasil como lar desde 2015, transformou o choque cultural em uma das carreiras mais bem-sucedidas do stand-up comedy atual. Na noite da última sexta-feira (10), ele foi a grande estrela a encerrar a terceira temporada do festival Humor Contra-Ataca, no Rio de Janeiro, marcando também a emocionante despedida de sua aclamada turnê, “Alma de Brasileiro”.
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Com a casa de espetáculos cheia, Paul entregou exatamente o que o seu público fiel esperava: uma radiografia hilária, ácida e, acima de tudo, extremamente afetuosa do nosso jeito peculiar de viver. O evento não foi apenas mais uma apresentação em sua agenda lotada, mas sim a emocionante despedida de sua turnê de sucesso, “Alma de Brasileiro”. Se na turnê anterior, intitulada “Parisileiro”, o comediante focava mais na transição de país e nas dificuldades de adaptação, nesta fase que agora se encerra, ele provou por A mais B que já foi totalmente abduzido pela nossa cultura — mesmo que algumas coisas ainda o deixem completamente perplexo.
A abertura da noite ficou por conta de Osvaldo Barros, um gigante do humor focado nas dinâmicas familiares. Pai do Gael e da Lara, Osvaldo preparou o terreno com maestria, desfiando seus hilários dilemas sobre a paternidade, os perrengues do casamento e a sua paixão doentia pelo Corinthians. O aquecimento perfeito para a entrada do “parisiense da periferia”, que subiu ao palco para mostrar que o Brasil é muito mais do que os gringos imaginam.
O perigo iminente das jacas e a letargia diante do caos

Um dos pontos mais geniais do espetáculo de despedida foi a capacidade de Paul de apontar o absurdo naquilo que o brasileiro considera absolutamente normal no dia a dia. Brincando com a flora local, o humorista relatou o pânico europeu ao se deparar com as imensas árvores frutíferas do nosso país. Em um dos momentos que mais arrancaram gargalhadas incessantes da plateia, ele relembrou o choque ao visitar o que parecia ser a escola de suas filhas e se deparar com uma jaqueira monumental no pátio.
Com a sua lógica europeia voltada para a segurança extrema, ele questionou a direção sobre o risco letal de uma fruta gigantesca despencar livremente. “Se isso cair na cabeça de uma criança, não vai matar?”, indagou ele, perplexo. A resposta da diretora, dita com a típica e assustadora tranquilidade nacional, foi simplesmente um: “Acontece”. É exatamente esse tipo de letargia diante do caos e a naturalização do perigo que fascinam o humorista. Ele ainda brincou com o fato de que, no Brasil, as pessoas podem ter fins inusitados, imaginando um túmulo com a inscrição: “morreu atacado por um coco”.
O “Brasil com Z” contra o verdadeiro “Brasil com S”

A grande tese que sustenta o show “Alma de Brasileiro” é a brilhante divisão que Paul faz da nossa nação: o Brasil que é vendido para fora e o Brasil que realmente se vive aqui dentro. Durante o stand-up, ele explicou a diferença entre o que chama de “Brasil com Z” (Brazil) e o “Brasil com S”.
Para os estrangeiros, o “Brasil com Z” é um grande clichê tropical. Quando questionados sobre o que representa o país, a resposta lá fora é imediata e previsível: “Futebol, samba, mulheres” e, claro, o Carnaval. É uma visão quase cinematográfica e altamente estereotipada. No entanto, o choque de realidade acontece quando o gringo pisa no nosso solo e descobre o verdadeiro “Brasil com S”, que, segundo a observação cirúrgica de Cabannes, é composto por elementos bem mais caóticos e apaixonantes: “Cerveja, cachorro caramelo, churrasco, podcast e pistache”. A plateia do Qualistage, no Rio, foi ao delírio com essa constatação, afinal, não há retrato mais fiel da nossa atualidade do que a obsessão nacional por um vira-lata caramelo e sobremesas de pistache.
A desconstrução do ‘francês romântico’ e os convites absurdos
Paul também não poupou a sua própria cultura de origem, fazendo questão de desconstruir o velho e consolidado mito do “francês romântico”. Ao falar sobre relacionamentos e intensidade, ele explicou que os europeus, especialmente os franceses, são extremamente metódicos. “Muito sistemático”, cravou ele. Em uma esquete que fez o público chorar de rir, ele relatou como a organização francesa afeta até a intimidade dos casais, simulando um agendamento burocrático de uma relação íntima: “Vamos fazer acontecer dia 7”.
Em total contraste, ele exaltou a espontaneidade quase selvagem do brasileiro, que não precisa de agenda para a paixão e trata a informalidade como um estilo de vida. Ele citou as abordagens diretas e as interações “sem vergonha” da nossa cultura. Uma das maiores provas dessa flexibilidade absurda, segundo ele, são os convites sociais. Paul compartilhou com a plateia o susto contínuo que toma ao ser convidado para eventos íntimos de pessoas que ele mal conhece. “Você quer ir pra um casamento?”, relatou ele, imitando a naturalidade assustadora com que os brasileiros o convidam para festas de matrimônio de terceiros, como se fosse um passeio qualquer no parque.
O fim de um ciclo e a gratidão ao país que o abraçou
Quando as luzes se aproximaram do fim e o espetáculo caminhava para a sua conclusão, o tom da apresentação mudou de puramente cômico para um momento de celebração e saudosismo. Após levar “Alma de Brasileiro” para os quatro cantos do país, arrastando multidões, lotando teatros e registrando números absurdos de bilheteria, Paul Cabannes fez questão de transformar os minutos finais de sua turnê em um gigantesco palco de agradecimento.
Com o microfone em mãos e a voz carregada de emoção, ele pediu aplausos calorosos para toda a sua equipe técnica, para o time de iluminação e som, e fez um destaque essencial para a inclusão em seus shows. “Queria agradecer muito a cada um de vocês, Pierrick e Florence, que participaram com muita coragem… trabalho de língua de sinais”, destacou o comediante, valorizando os intérpretes de Libras que o acompanharam e garantiram a acessibilidade da turnê.
Ele não esqueceu daqueles que construíram o seu caminho nos bastidores. Paul fez uma homenagem especial ao seu empresário, celebrando a parceria de longa data que o tirou do anonimato. “Felipe Simas, que tá comigo já faz 5 anos, é meu empresário”, pontuou, estendendo os agradecimentos a outros membros da equipe, como Carol e Braulio. O francês também fez questão de reverenciar Osvaldo Barros, pedindo uma salva de palmas estrondosa para o colega que abriu a noite de forma brilhante.
Antes de deixar o palco, Paul aproveitou o engajamento do público para brincar com o seu próprio empreendimento educacional, promovendo de forma descontraída a sua “escola de francês que se chama Voilà”, uma ótima sacada para quem deseja aprender o idioma com o professor mais carismático possível.
O encerramento oficial da turnê fecha um ciclo de ouro na carreira de Cabannes. De “pobre em Paris” a um dos maiores nomes do entretenimento ao vivo no Brasil, ele provou que o humor é a linguagem universal mais poderosa de todas. Paul não apenas nos fez rir até a barriga doer das nossas próprias falhas e contradições, mas também nos lembrou de como o nosso país é único, intenso e maravilhoso aos olhos de quem vem de fora. Mesmo com sotaque gringo e o passaporte europeu, ele já possui um coração, uma ginga e uma alma inegavelmente verde e amarela. Que venham os próximos projetos do francês mais brasileiro que temos!
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