O Lollapalooza Brasil 2026 abriu seus portões com uma promessa de grandes espetáculos, mas foi no Palco Budweiser, durante a transição da tarde para a noite desta sexta-feira (20), que o festival entregou uma de suas performances mais arrebatadoras. A rapper norte-americana Doechii pisou em solo brasileiro com uma missão dupla: pagar uma dívida com os fãs após o cancelamento de sua vinda em 2024 e provar por que é considerada a nova realeza do hip-hop global. O resultado de seus intensos 45 minutos em cena foi uma grata e imensa surpresa. Em um show eletrizante e sem respiros, a artista mostrou que o domínio de palco e a excelência corporal podem superar qualquer barreira linguística ou falta de familiaridade do grande público com um repertório profundo.
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O desafio do repertório e o triunfo do carisma
Existe uma dificuldade histórica para artistas internacionais de rap em festivais não dedicados exclusivamente ao gênero na América Latina: conseguir manter a energia de uma multidão que, muitas vezes, não domina o idioma ou as rimas rápidas de canções menos comerciais. No caso de Doechii, esse desafio era ainda mais palpável. Aos 27 anos, ela chegou a São Paulo vivendo o ápice de sua aclamação crítica, tendo vencido recentemente o cobiçado Grammy de Melhor Álbum de Rap com a excelente “mixtape” “Alligator Bites Never Heal“. No entanto, para o público geral do Lollapalooza, a cantora ainda era um nome atrelado a sucessos virais específicos, como o “smash hit” “Anxiety” e a cativante “What It Is“.
A grande surpresa da noite residiu justamente na forma como a rapper lidou com esse cenário. Longe de se apoiar apenas nos momentos em que o público sabia a letra, Doechii decidiu engolir o Autódromo de Interlagos com técnica, “flow” certeiro e uma presença imponente. Onde faltava o coro do público em faixas menos conhecidas como “Boiled Peanuts” ou “Spookie Coochie“, sobrava uma energia magnética que obrigava a plateia a pular, dançar e bater seus tradicionais leques no ritmo ditado pela artista. Ela cativou de forma absoluta uma multidão que, em grande parte, estava ali aguardando a atração principal da noite, transformando curiosos em fãs devotos em questão de minutos.
A força do balé e a expressão corporal como narrativa

Se o rap afiado de Doechii já seria suficiente para sustentar o espetáculo, foi a sua entrega física que elevou a apresentação ao patamar de inesquecível. A expressão corporal e a sinergia com o seu corpo de baile foram os grandes trunfos visuais e narrativos do show. Fugindo da estética tradicional e muitas vezes engessada dos shows de hip-hop em arenas — que costumam focar apenas no artista caminhando de um lado para o outro do palco —, a norte-americana construiu uma performance altamente coreografada, teatral e incansável.
A precisão dos movimentos mesclava passos de dança contemporânea, “street dance” e a atitude agressiva das pistas de boate. Doechii não parou por um segundo. Ela rebolou, interagiu sedutoramente com as câmeras, deitou no chão, foi carregada pelas bailarinas e protagonizou momentos de intensa interação tátil com o seu balé. Essa química entre a cantora e as dançarinas criava blocos de intensidade constante, sem pausas para o público ou para ela mesma descansarem. Era uma demonstração de fôlego invejável, provando que a artista domina a fusão entre a música, a respiração e a expressão corporal de maneira que poucas estrelas pop conseguem replicar na atualidade.
Estética mística e a cartomante do hip-hop
A cenografia escolhida para a estreia no Brasil foi outro ponto de destaque que ajudou a segurar a atenção do público durante as faixas menos conhecidas. O palco foi decorado com tapetes persas, abajures e cortinas que remetiam a uma tenda mística, criando um ambiente surpreendentemente íntimo no meio da vastidão de Interlagos. Vestida com elementos que remetiam a uma estética cigana, Doechii assumiu o controle do ritual.
O espetáculo foi guiado pelas aparições em vídeo da personagem “Mr. Chi Chi Tarot“, uma espécie de cartomante mística interpretada pela própria cantora, que aparecia nos enormes telões laterais. Essas inserções de vídeo serviam para ditar as transições entre os atos do show e permitir as rápidas trocas de figurino. Embora em um momento inicial a entrada da artista tenha causado leve confusão — com os telões demorando a focar na estrela durante a faixa de abertura “Girl, Get Up” —, a narrativa visual logo se estabilizou, oferecendo uma experiência imersiva e conceitualmente rica.
O batidão carioca e a verdadeira conexão com o Brasil
Antes de desembarcar no país, Doechii havia prometido no X (antigo Twitter) que preparava um show exclusivo para o Brasil. Em tempos de turnês globais padronizadas, a declaração poderia soar como puro “marketing”, mas a artista provou que realmente fez a sua lição de casa. A demonstração de respeito pela cultura local começou na véspera do show, quando a rapper foi vista prestigiando a festa Batekoo, no centro de São Paulo, interagindo com talentos do rap nacional como Ebony e Duquesa. Esse mergulho na cena urbana brasileira se materializou de forma explosiva no palco.
Durante o “set”, a cantora inseriu batidas pesadas de funk carioca e “phonk” europeu em seus arranjos. O grande momento de catarse coletiva ocorreu antes da faixa “Alter Ego“, quando “samples” do clássico “Tira e Bota“, da lendária Furacão 2000, ecoaram pelas caixas de som do Lollapalooza. A resposta da plateia foi imediata e visceral. O mar de pessoas começou a pular de forma sincronizada, acompanhando os graves do funk brasileiro enquanto a artista norte-americana dominava o palco com um rebolado impecável. A cantora também se esforçou na comunicação, arriscando saudações em português como “Brasil! E aí?”, o que gerou sorrisos e gritos de aprovação de quem acompanhava a apresentação de perto.
A superação de problemas técnicos e o peso dos sucessos

A grandiosidade da performance cênica de Doechii foi essencial para mascarar e superar as falhas técnicas que ameaçaram o início de sua apresentação. Durante os primeiros minutos do show, o som do Palco Budweiser apresentou problemas evidentes de mixagem. Os graves, elementos fundamentais e propulsores da sonoridade da rapper, estavam baixos, e o microfone principal parecia lutar para se destacar em meio à base pré-gravada. Felizmente, a energia inesgotável da artista e a rápida correção por parte da equipe de áudio evitaram que o problema prejudicasse a experiência global.
Quando o som finalmente se alinhou, os sucessos da cantora soaram gigantescos. “Anxiety“, faixa que se tornou trilha sonora de novelas no Brasil e que utiliza de forma genial o “sample” de “Somebody That I Used To Know” (do cantor Gotye), foi cantada em coro absoluto. Foi a prova viva do alcance popular que a artista conquistou digitalmente. Faixas como “Nissan Altima” e o “freestyle” “America Has a Problem” mantiveram a agressividade em alta, enquanto “Denial Is a River” — música que a projetou globalmente após uma apresentação irretocável no formato Tiny Desk — serviu para demonstrar a crueza e a agilidade impressionante de suas rimas ao vivo.
O final catártico e uma promessa para o futuro
Para o encerramento do seu curto, porém intenso tempo de palco, Doechii escolheu a faixa “What It Is (Block Boy)“. O “single”, que é indiscutivelmente o seu trabalho de maior viés pop e comercial, trouxe uma atmosfera mais leve e celebratória para o fim da tarde paulistana. Embora alguns críticos presentes tenham apontado a escolha como um “anticlímax” por não seguir a energia agressiva do rap destilado minutos antes, a música funcionou perfeitamente para embalar a despedida de um público que já estava completamente rendido ao seu talento.
Antes de as cortinas místicas se fecharem e as luzes se apagarem, a vencedora do Grammy deixou um recado claro e afetuoso para a multidão: “Não se esqueçam de mim. Te amo”. Considerando a qualidade da entrega, a fusão cultural respeitosa com o funk e a aula de expressão corporal que ela ministrou em Interlagos, é absolutamente seguro afirmar que o Brasil não esquecerá Doechii tão cedo. A rapper veio para pagar uma dívida, mas acabou deixando o público brasileiro sedento por um show solo completo. O Lollapalooza Brasil 2026 será lembrado como o palco que testemunhou a consolidação de uma das artistas mais completas, criativas e hipnotizantes da atual geração da música global.
Confira a setlist completa de Doechii no Lollapalooza 2026:
- “Girl, Get Up”
- “Alter Ego”
- “Persuasive”
- “Boiled Peanuts”
- “Bullfrog”
- “Spookie Coochie”
- “Nosebleeds”
- “Crazy”
- “Anxiety”
- “Stressed”
- “Nissan Altima”
- “America Has a Problem (Freestyle)”
- “Swamp Bitches”
- “Catfish”
- “Denial Is a River”
- “What It Is”
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