Opinião
Trevor Noah, Bad Bunny e Billie Eilish: Como o Grammy virou um ato de guerra contra Trump e Nicki Minaj
Se o Grammy costuma ser celebrado como a “maior noite da música”, a cerimônia deste domingo (1º) no Crypto.com Arena entrará para a história como a noite da resistência. Entre troféus e performances, o script foi rasgado por um clima abertamente anti-Trump, liderado por um Trevor Noah afiado em sua despedida e discursos viscerais de Bad Bunny e Billie Eilish.
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A tensão política nos EUA, inflamada pelas recentes operações federais de imigração, transformou o tapete vermelho e o palco em um campo de batalha ideológico.
O “WAP” presidencial: Trevor Noah vs. Nicki Minaj
Em sua sexta e última vez como anfitrião, Trevor Noah abandonou a neutralidade logo no monólogo de abertura. O alvo foi a ausência sentida de Nicki Minaj, que recentemente chocou a internet ao se declarar apoiadora ferrenha de Donald Trump e do movimento MAGA.
Após brincar com a plateia, Noah disparou:
“A Nicki Minaj não está aqui. Ela ainda está na Casa Branca com o Donald Trump, discutindo questões muito importantes.”
Não satisfeito, o comediante emendou uma imitação impagável de Trump, referenciando o hit viral de Cardi B: “Na verdade, Nicki, eu tenho a maior bunda! Todo mundo está dizendo isso… WAP, WAP, WAP. Olha só para isso, bebê!”. A piada arrancou gargalhadas nervosas, expondo o isolamento de Minaj na classe artística.
“ICE OUT”: o grito de Bad Bunny e Billie Eilish
Enquanto Noah usava o humor, os vencedores da noite usaram o microfone para um manifesto. O movimento “ICE OUT” (referência à agência de imigração dos EUA) dominou a cerimônia, motivado pela revolta popular após a morte dos civis americanos Renee Good e Alex Pretti em operações federais em Minneapolis.
Bad Bunny, que venceu na categoria de Melhor Álbum de Música Urbana com o disco “Debí Tirar Más Fotos”, subiu ao palco sob aplausos ensurdecedores. O astro porto-riquenho, que não se apresentou na noite devido ao seu contrato para o intervalo do Super Bowl na próxima semana, foi direto:
“Antes de dizer obrigado, eu quero agradecer a Deus e quero dizer: FORA ICE!”, gritou ele. “Não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas. Somos humanos e somos americanos. O ódio se torna mais poderoso com mais ódio… Se formos lutar, temos que fazer isso com amor.”
Momentos depois, foi a vez de Billie Eilish reforçar o coro. Ao levar o gramofone de Canção do Ano por “Wildflower”, ela foi ainda mais incisiva:
“Honestamente, ninguém é ilegal numa terra roubada”, disse Billie, visivelmente emocionada. “Eu sinto esperança nessa sala… Foda-se o ICE.”
O “climão” geográfico
A tensão política também gerou momentos de desconforto cômico. Em uma interação na plateia, Trevor Noah brincou com Bad Bunny sobre buscar refúgio político: “Se as coisas piorarem, posso me proteger com você em Porto Rico?”.
Bunny, sem perder a postura, deu uma aula rápida de geopolítica ao vivo: “Você sabe que Porto Rico também faz parte dos Estados Unidos, certo?”. O momento viralizou instantaneamente como um retrato da confusão geral sobre o status dos territórios latinos sob a atual administração.
Protestos visuais e destaques musicais
Além dos discursos, a moda serviu de protesto. Artistas como Kehlani e Justin Bieber (que apresentou faixas do álbum “Swag”) cruzaram o tapete vermelho usando broches com a frase “ICE OUT”.
Apesar do peso político, a música teve seu espaço. Kendrick Lamar liderou a noite com nove indicações, enquanto Lady Gaga brilhou com a performance de “Abracadabra” e Sabrina Carpenter celebrou o sucesso do álbum “Man’s Best Friend”.
Mas, ao final da noite, ficou claro: em 2026, ganhar um Grammy foi secundário. O verdadeiro prêmio foi ter coragem de segurar o microfone e falar o que precisava ser dito.
