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Sabrina Carpenter apresenta pop perfeitinho em show super aguardado e consagra-se como a nova gigante do Lollapalooza Brasil

O mundo do entretenimento sempre teve uma intuição clara sobre o poder de Sabrina Carpenter. Quando a artista americana estourou nas paradas globais com a magnética “Espresso” e, em seguida, dominou o cenário musical com o aclamado álbum “Short n’ Sweet“, a indústria tentou rotulá-la de diversas maneiras. Para alguns, ela era o exemplo clássico da garota que trabalhou duro por anos nos bastidores até ser finalmente recompensada. Para outros, era a jovem sem papas na língua que devolveu o atrevimento e o humor ácido à cultura pop ocidental. No entanto, o que os milhares de fãs presentes no Autódromo de Interlagos presenciaram na noite desta sexta-feira (20) foi algo muito maior. Ao encerrar o primeiro dia do Lollapalooza Brasil 2026, Sabrina Carpenter provou que é, antes de qualquer rótulo, uma artista dedicada visceralmente à arte de fazer música pop.

Mesmo após diversas passagens pelo Brasil na última década, é seguro afirmar que este foi o seu primeiro show de verdade em terras brasileiras. O espetáculo serviu como um rito de passagem definitivo, coroando a cantora de 26 anos com o merecido e inquestionável status de superestrela global. A menina de 1,52m de altura agigantou-se diante de um mar de pessoas, entregando uma performance que viajou com maestria do teatral ao catártico, com direito a cenografia deslumbrante, balé afiado, vocais impecáveis e uma participação especial de Luísa Sonza que monopolizou as atenções.

A jornada do Disney Channel ao topo do mundo: As passagens anteriores pelo Brasil

Para compreender a grandiosidade do que aconteceu no Palco Budweiser, é preciso voltar um pouco no tempo. A carreira de Sabrina começou nos moldes clássicos dos ídolos infantojuvenis, estrelando a série “Garota Conhece o Mundo” (2014-2017) no Disney Channel. Sua relação com os palcos brasileiros foi construída de forma gradual e, muitas vezes, à sombra de nomes maiores. Em 2017, ela desembarcou por aqui para abrir os shows da turnê de Ariana Grande. Naquela época, Carpenter ainda era uma ilustre desconhecida para o grande público, lutando para provar que sua voz ia muito além do estigma da emissora televisiva.

Os anos se passaram, a cantora lançou álbuns independentes que flertavam com o pop alternativo, até retornar ao Brasil em 2023. Naquele ano, Sabrina teve uma passagem morna pelo Mita Festival, mas meses depois voltou triunfante como o ato de abertura da colossal turnê “The Eras Tour“, de Taylor Swift. Foi nos estádios brasileiros, abrindo para a veterana, que o público começou a notar a transformação: a loirinha ensaiava ali a persona que a consagraria no ano seguinte. Letras provocantes, duplos sentidos geniais e um carisma avassalador já estavam presentes. É como se todas essas experiências tivessem maturado a artista para o momento em que a explosão de “Short n’ Sweet” (que lhe rendeu dois prêmios Grammy) finalmente acontecesse.

Estética retrô, cenografia teatral e homenagem ao Brasil

Quando as luzes do Palco Budweiser se apagaram, o público foi imediatamente transportado para um universo paralelo. Estruturado a partir de um dispositivo narrativo simples, semelhante a um programa de variedades da televisão americana dos anos 1970 e 1980, o espetáculo revelou um cenário intrincado, composto por plataformas elevadas, escadarias móveis e andaimes industriais. Essa verticalidade foi essencial para que a cantora não fosse engolida pela imensidão do Autódromo.

Antes mesmo de pisar fisicamente no palco, o rosto da cantora surgiu nos enormes telões laterais. “Estamos ao vivo de São Paulo! Peguem outra caipirinha pra mim! Tchau, tchau!”, brincou a artista, levando a multidão ao delírio imediato. Atendendo às expectativas dos fãs que imploravam por homenagens ao país, Sabrina surgiu deslumbrante em um “look” amarelo vibrante, a primeira parte de sua homenagem à bandeira nacional. Mais tarde, após uma rápida troca de figurino, ela retornaria vestindo um elegante conjuntinho verde, completando a paleta verde e amarela com maestria.

O palco foi dominado por uma iluminação intransigente e colorida: banhos de neon em tons de rosa choque, azul céu e amarelo solar. No centro de tudo, Carpenter exalava a aura das musas de videoclipes oitentistas. Em momentos instrumentais dramáticos, ela posava com os cabelos esvoaçantes contra a luz, evocando lendas como Olivia Newton-John, Madonna e Cindy Crawford. A cantora esbanjou pose e sedução teatral, como se estrelasse um editorial de moda ao vivo para dezenas de milhares de espectadores.

A música em primeiro lugar: De baladas country a hinos das pistas

Mas o respeito reverencial de Sabrina pela estética de épocas passadas transborda, de forma muito mais importante, para a música em si. O espetáculo no Lollapalooza serviu como um lembrete do porquê o pop é tão irresistível. Comparada a muitas de suas colegas de geração, Carpenter para pouco o show para discursos motivacionais profundos ou desabafos longos. Ela fala de sua maneira avoada e carismática, quase ansiosa para retornar àquilo que importa: a execução brilhante de seu repertório.

O “setlist”, bastante similar ao apresentado em outros países da América Latina, funcionou como uma máquina de sucessos. A sequência inicial com “Taste” e “Good Graces” elevou a energia ao máximo, logo contrastada com a balada de batida country “Slim Pickins“. Nesse momento mais intimista, ficou evidente a delicadeza com que a cantora consegue passear pela linha tênue que separa o pop radiofônico do country nostálgico, uma herança direta de divas da linhagem de Dolly Parton.

Em “Manchild“, um dos maiores trunfos de seu último trabalho, a força de suas letras ácidas ficou explícita. Cada ofensa direcionada ao crianção do título foi berrada a plenos pulmões pela plateia, da grade até as barracas de alimentação. Já na faixa “Nobody’s Son“, Sabrina deixou as coreografias de lado e soltou o vozeirão, calando os críticos que ainda duvidam de sua capacidade técnica. Em seguida, resgatou sua faceta mais sexy e influenciada pelo R&B com “Bed Chem“, flertando intensamente com as câmeras.

Interação carismática, o calor paulista e as vaias inusitadas

A relação de Sabrina Carpenter com o público brasileiro beira a devoção mútua. “Eu não vou mentir, já vim aqui algumas vezes e vocês já resolveram tudo. Sinto que hoje vai ser uma das melhores galeras”, declarou a estrela, jurando que, além dos fãs, havia retornado ao país por seu amor incondicional ao brigadeiro.

A espontaneidade da artista rendeu os momentos mais divertidos da noite. Durante um segmento de voz e violão, desenhado para recuperar o fôlego da trupe de dançarinos, Sabrina parou para tentar entender o coro que ecoava de Interlagos. “O que? Está quente? Está mesmo. Não? Ah, eu sou ‘hot’? Não pode ser isso que vocês estão falando”, brincou, confusa com o português. Ao ser ajudada por alguém da produção, ela disparou: “Gostosa! Eu vou lembrar disso e vou usar essa”.

Apesar do espetáculo impecável, a noite não foi isenta de pequenos ruídos. O som pesado do show de Edson Gomes, que se apresentava simultaneamente em outro palco, invadiu o espaço acústico em alguns momentos mais silenciosos, gerando murmúrios de insatisfação em parte da plateia mais recuada. No entanto, o verdadeiro ponto de tensão ocorreu no já tradicional número teatral de “Juno“.

Na turnê de “Short n’ Sweet“, a cantora tem o hábito de escolher alguém da plateia ou uma celebridade convidada para prender com algemas felpudas no palco. Para a edição do Brasil, a escolhida foi a cantora pop brasileira Luísa Sonza. Quando o rosto de Sonza apareceu nos telões sendo algemada por Sabrina, uma parte significativa do público reagiu com vaias e gritos de desaprovação. A cena causou um leve constrangimento, evidenciando as polarizações que a brasileira ainda enfrenta no cenário nacional. Sabrina, demonstrando extremo profissionalismo e traquejo de palco, não se deixou abalar, sorriu para a colega e seguiu o número sem perder uma única nota da canção.

O grande encerramento: Please Please Please e a catarse de Espresso

Qualquer vestígio de má vontade ou dispersão foi pulverizado na reta final do espetáculo. Com uma queima de fogos de artifício impressionante, Sabrina abriu caminho para “Please Please Please“, um de seus maiores sucessos recentes. A canção, que mescla elementos de country, pop e synth-wave, ressoou como um hino absoluto no Autódromo.

O ápice, é claro, estava reservado para o encerramento. Quando as primeiras batidas de baixo e guitarra funk de “Espresso” ecoaram, o Lollapalooza Brasil se transformou em uma imensa discoteca a céu aberto. A faixa, que definiu o som do ano de 2024 e projetou a artista para o primeiro escalão do entretenimento, foi cantada aos berros, coroando uma apresentação que durou pouco menos de uma hora e meia.

O resultado final é um show que não tenta ser sobre a redenção da artista ou sobre problemas pessoais transformados em choro no palco. É um espetáculo totalmente focado na música, na diversão escapista e em todas as delícias sonoras e visuais que o gênero pode prover. Aos 26 anos e dona de uma das estéticas mais coesas da atualidade, a cantora provou que o seu atrevimento é, na verdade, uma dedicação feroz ao entretenimento de altíssima qualidade. O show no Brasil foi, como o nome de seu disco já avisava, curto, doce e energizante. Sabrina Carpenter pediu um expresso, mas entregou um banquete musical completo.

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