Filmes

Por trás do glamour: Como as Leis de Incentivo construíram o caminho para o Brasil brilhar em Hollywood

Wagner Moura, Fernanda Torres e Kléber Mendonça Filho. Foto: Divulgacão / Montagem / PopNow

Quando Wagner Moura ergueu o Globo de Ouro no último domingo e dedicou o prêmio à cultura brasileira, ou quando Fernanda Torres encantou o mundo em 2025, o público viu o resultado final de um processo longo e complexo. O brilho dos holofotes, no entanto, esconde uma engrenagem fundamental que opera nos bastidores há mais de três décadas: as leis de incentivo à cultura.

Não é exagero afirmar que a “Era de Ouro” que o cinema nacional vive em 2026 não seria possível sem a política de Estado implementada e defendida ao longo dos anos. Mas, afinal, como essas leis transformaram o Brasil de um mercado tímido em uma potência audiovisual capaz de rivalizar com produções estrangeiras?

O Renascimento: Lei Rouanet e Lei do Audiovisual

Para entender o presente, é preciso olhar para o início dos anos 90. Após a extinção da Embrafilme, o cinema brasileiro praticamente parou. A retomada começou com a criação da Lei Rouanet (Lei 8.313) em 1991. Embora muitas vezes mal compreendida, ela criou o mecanismo de renúncia fiscal, permitindo que empresas destinassem parte de seus impostos para patrocinar obras culturais.

Logo em seguida, percebendo a especificidade cara do cinema, surgiu a Lei do Audiovisual (Lei 8.685) em 1993. Foi essa legislação que permitiu a produção de clássicos que recolocaram o Brasil no mapa, como O Quatrilho (1995) e Central do Brasil (1998). Sem esse empurrão inicial, a indústria não teria estrutura para produzir filmes como Cidade de Deus (2002), que também bebeu dessa fonte para se tornar um fenômeno global.

Como funciona: Não é “dinheiro grátis”

Um dos maiores mitos sobre o fomento é que o governo simplesmente “dá dinheiro” ao artista. Na prática, o sistema é rigoroso.

Para conseguir captar recursos via Lei Rouanet ou Lei do Audiovisual, o produtor precisa submeter um projeto detalhado à Ancine (Agência Nacional do Cinema) ou à Secretaria de Cultura. O projeto passa por análises técnicas e orçamentárias.

Uma vez aprovado, o governo não libera verba direta. O produtor ganha a “autorização para captar”. Ele deve ir ao mercado, bater na porta de empresas privadas e convencê-las a investir no filme em troca de abatimento no Imposto de Renda. Além disso, há a exigência de contrapartidas sociais: o projeto deve oferecer retorno à sociedade, como exibições gratuitas em escolas públicas, ingressos a preços populares, palestras educativas ou ações de acessibilidade. Ao final, uma prestação de contas minuciosa é exigida; qualquer centavo mal gasto deve ser devolvido.

O Fundo Setorial e as Leis de Emergência

A indústria deu um salto ainda maior com a consolidação do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), abastecido pela própria indústria (taxas pagas, por exemplo, por empresas de telecomunicações). Foi o FSA que impulsionou sucessos de bilheteria como Minha Mãe é uma Peça e obras de prestígio internacional como Bacurau (2019).

Mais recentemente, o setor enfrentou o abismo da pandemia. A resposta veio com a Lei Aldir Blanc (2020) e a Lei Paulo Gustavo (LC 195/2022). Estas foram vitais para que a produção não morresse durante o isolamento.

O sucesso que vemos hoje em 2026, com O Agente Secreto e a aclamação contínua de Ainda Estou Aqui, é o fruto colhido das sementes plantadas pelas Leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc. Elas irrigaram o setor quando ele estava mais seco, permitindo que roteiros fossem desenvolvidos e equipes fossem mantidas, preparando o terreno para essa explosão criativa pós-pandemia.

Muito além do entretenimento

As leis de incentivo não servem apenas para fazer filmes bonitos. Elas fomentam uma indústria que gera milhares de empregos diretos e indiretos — do eletricista ao maquiador, do motorista ao advogado de direitos autorais.

Quando Hollywood se rende ao talento brasileiro, ela está aplaudindo não apenas um ator ou um diretor, mas toda uma cadeia produtiva que só existe porque, lá em 1991 e 1993, decidiu-se que a cultura brasileira merecia investimento. O Oscar, se vier, será a cereja de um bolo fermentado por políticas públicas sérias e necessárias.

Resumo

Lei Rouanet (1991): Criou o mecanismo de renúncia fiscal para a cultura em geral.

Lei do Audiovisual (1993): Focada especificamente em cinema, foi o motor da “Retomada”.

Lei Paulo Gustavo (2022): Injeção direta de recursos para recuperar o setor pós-pandemia, responsável pela safra de sucessos de 2025/2026.

Contrapartida: Não basta fazer o filme; é preciso devolver algo à sociedade (ingressos baratos, educação, acessibilidade).

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