Opinião

Hollywood finalmente se rendeu ao Brasil? A resposta veio em português no palco do Globo de Ouro

Wagner Moura. Foto: Divulgação / Golden Globes

Durante décadas, vivemos de “quases”. Quase levamos com Central do Brasil, quase chegamos lá com Cidade de Deus, quase tocamos o céu com O Que É Isso, Companheiro?. Mas algo mudou. A sensação que fica, após a noite histórica deste último domingo (11) no Globo de Ouro 2026, é que a porta não foi apenas aberta — ela foi derrubada.

Se Hollywood finalmente se rendeu ao cinema brasileiro? A resposta, meus caros, nunca esteve tão clara. E ela veio acompanhada de um discurso emocionado em nossa língua materna.

O “Efeito Fernanda” e a pavimentação do caminho

Para entender a magnitude do que Wagner Moura e O Agente Secreto acabam de conquistar, precisamos voltar um pouco, para o furacão Fernanda Torres em 2025.

Quando Nanda subiu ao palco no ano passado para receber seu Globo de Ouro por Ainda Estou Aqui, ela não estava apenas recebendo uma estatueta; ela estava reatando um laço que parecia desfeito desde que sua mãe, Fernanda Montenegro, foi injustiçada no Oscar de 1999. Embora o Oscar de 2025 tenha nos escapado (uma ferida que ainda arde ao lembrar da vitória de Mikey Madison), aquele momento virou a chave. O mundo voltou a olhar para nós não como uma cota exótica, mas como uma potência criativa incontornável.

Fernanda “passou o bastão” — ou melhor, o “santinho” da sorte, como brincou Wagner — e o resultado foi uma dobradinha inédita.

A noite em que o Brasil falou mais alto

Ver Wagner Moura ser coroado Melhor Ator em Filme de Drama não é apenas um prêmio individual; é a validação de uma carreira que desafiou a gravidade, indo de Tropa de Elite a Narcos e, agora, ao topo do mundo com um filme 100% brasileiro.

O momento que definiu a noite, no entanto, foi a quebra de protocolo linguístico. Em uma cerimônia historicamente anglocêntrica, ouvir Wagner dedicar o prêmio com um vibrante “Viva o Brasil, viva a cultura brasileira” foi o anúncio definitivo de que chegamos para ficar. Não foi uma nota de rodapé; foi a manchete.

E se você precisava de mais provas de que o jogo virou, bastava olhar para a plateia. Não vimos apenas aplausos educados. Vimos a realeza de Hollywood se curvar. O abraço caloroso de Julia Roberts em Wagner Moura não foi apenas um cumprimento de colega; foi um reconhecimento de igual para igual. Quando a “Uma Linda Mulher” fazer questão de parabenizar o nosso “Capitão Nascimento”, a hierarquia cultural se dissolve.

Do “Central” ao “Agente”: A nossa hora chegou?

Historicamente, o Brasil sempre bateu na trave por falta de momentum ou campanha. Em 2026, temos tudo. Temos a narrativa de superação (o retorno pós-Fernanda), temos a aclamação crítica de O Agente Secreto (que também levou Melhor Filme em Língua Não-Inglesa, repetindo o feito de Central do Brasil) e temos o star power.

Diferente de anos anteriores, onde tínhamos um “azarão”, hoje temos favoritos. A consagração no Globo de Ouro costuma ser o termômetro mais fiel para o Oscar. Se a Academia seguir a tendência, não estamos mais falando apenas de “indicação”. Estamos falando de discursos de vitória preparados.

Hollywood se rendeu? Talvez “render-se” seja a palavra errada. Hollywood finalmente percebeu que não pode mais nos ignorar. O Brasil não é mais o “país do futuro” no cinema. O futuro é agora, e ele fala português.

Que venha o Oscar. O terno já está pronto, e o discurso também.

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