Brasil
Alcione e Iza dissecam racismo e o legado da música preta na Rio2C: ‘A porta fechada é para bater’
Alcione e Iza protagonizaram um momento catártico e histórico no palco principal da Rio2C 2026, transformando um painel voltado para a indústria fonográfica em um profundo resgate da ancestralidade afro-brasileira. Mediado pela jornalista Aline Midlej, o encontro intitulado “Ancestralidade e Legado” abordou as dores, os sacrifícios e as vitórias que pavimentaram o caminho para as mulheres negras na música nacional. A troca de vivências entre a maior voz viva do samba e a grande expoente do pop contemporâneo mergulhou em temas espinhosos como o racismo estrutural da elite, o machismo das gravadoras no século passado, os perigos da validação digital e a força imensurável da fé.
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O desbravamento histórico e a quebra de um mercado machista
O diálogo foi estruturado a partir da reverência que a nova geração deve àquelas que abriram os caminhos na base da força. Iza iniciou sua fala destacando o impacto monumental de dividir o palco com a mulher que inaugurou espaços antes inatingíveis para artistas negras. “Sem querer, né? Só simplesmente sendo você, fazendo o seu trabalho, saindo de casa, enfrentando os desafios do dia a dia. Já é diferente e difícil para a gente hoje, eu não consigo imaginar o que que deveria ser para uma mulher preta subir no palco principal a 50 anos atrás”, apontou a artista, sublinhando o tamanho do marco que foi a trajetória da veterana.
Com a vivência de quem precisou derrubar o patriarcado da indústria cultural a golpes de voz e talento, Alcione relembrou a realidade árdua do mercado brasileiro em seus primeiros anos de carreira. O cenário fonográfico era liderado por executivos que duvidavam da capacidade comercial feminina. “Já foi muito difícil, porque no meu tempo mulher não vendia disco, né? Mulher não vendia disco, era só homem que vendia disco”, revelou a Marrom. A transformação desse panorama teve a ajuda vital de outra gigante da nossa cultura: “Eu estava lascada, né? Só teve uma mulher que conseguiu vender mais discos na época que era a Clara Nunes, que vendeu mais de 150 mil discos. Da qual eu sou fã até hoje”.
A sambista explicou que sua base familiar foi o pilar essencial para suportar a solidão de ser uma das únicas vozes negras nos espaços de poder. Relembrando a infância simples no Maranhão, Alcione contou que o amor pela música sempre esteve no centro de sua casa, mas foi a instrução rígida e protetora de seu pai que forjou a sua armadura artística. “As coisas foram melhorando a partir disso. Nós fomos abrindo trincheiras, muitas trincheiras tivemos que vencer, não só por ser mulher, por ser negra”, pontuou. “Mas eu acho que meu pai sempre disse para mim: ‘Minha filha, a porta fechada é para bater, e eu bato nessas portas, não me cansarei de bater'”.
Crise de identidade, síndrome do impostor e a virada de Iza
Se Alcione batalhou pelo direito de ter seus discos prensados e vendidos, Iza enfrentou os desafios invisíveis de uma mídia que negava o seu reflexo. A cantora pop fez um desabafo honesto sobre como a ausência de representatividade preta nas revistas e na televisão atrasou o seu chamado artístico, empurrando-a inicialmente para os bastidores. “Eu me formei em outra área, né? Eu trabalhava com publicidade, com edição de vídeo. Mas a música ela sempre foi uma coisa que era muito importante para mim, falava mais alto do que qualquer insegurança minha, do que qualquer dúvida”, confessou a voz de “Pesadão”.
A cantora descreveu a dolorosa construção psicológica que atinge milhares de jovens negras que não se veem nos espaços de protagonismo. “Eu tive que romper barreiras daquilo que eu imaginava, né. Eu não imaginava que as pessoas iriam querer ver alguém como eu, não via muitas representantes como eu nos lugares. Então quando você não se vê nos lugares, existe um pedaço de você que começa a acreditar que talvez aquele lugar não seja para você”, explicou Iza, silenciando o auditório. A transição da publicidade para os palcos exigiu não apenas treinamento vocal, mas uma reconstrução severa de sua autoestima. “A gente só quer se misturar em determinado momento da vida, durante a adolescência, a gente não quer se destacar. Mas a música não me deu outra opção”, concluiu.
O racismo do “navio negreiro” e as repostas inesquecíveis da Marrom
Um dos momentos mais estarrecedores da masterclass ocorreu quando as artistas debateram os episódios de violência racial explícita que cruzaram suas vidas profissionais. Em um depoimento impactante, Alcione relatou um ataque sofrido em um espaço frequentado pela alta sociedade carioca, escancarando como o racismo brasileiro opera mesmo diante do sucesso e da consagração.
“Teve uma vez num hotel daqui do Rio, um hotel importante, eu fui chegando… tinha uma convenção da companhia lá. Um cara olhou para mim e disse: ‘chegou o navio negreiro'”, contou a intérprete, gerando murmúrios de indignação entre os presentes. Fiel à sua essência destemida e implacável, a cantora revelou que jamais aceitou abaixar a cabeça para o preconceito, dando o troco com a mesma agressividade exigida pela situação. “O meu papel higiênico é branco, mas eu limpo meu traseiro com ele”, respondeu a sambista, arrancando gargalhadas e aplausos efusivos da plateia pela sagacidade de sua defesa.
Alcione fez questão de reforçar que o samba sempre foi uma trincheira de guerra, e que o valor da música afro-brasileira transcende fronteiras, mesmo que dentro do país ela tenha sofrido para ser aceita nos salões nobres. “Não tem uma música parecida com a nossa. Ninguém tem esse molejo, esse balanço”, declarou. O respeito conquistado, segundo ela, precisa ser mantido com firmeza e sem concessões ao padrão branco.
Saúde mental, terapia e os perigos da validação digital
Avançando para as pressões contemporâneas da indústria, Iza abordou o papel destruidor que as redes sociais e a cobrança constante exercem sobre a mente do artista moderno. Diferente do passado, onde o contato com a crítica era esporádico, a era digital transformou a vida do músico em um escrutínio ininterrupto. A cantora enfatizou que a terapia foi a sua principal ferramenta para não enlouquecer diante da expectativa de milhões de fãs.
“Acho que a gente não pode se levar a sério como as pessoas levam nosso trabalho. Terapia. Muita terapia”, cravou a artista pop. “A gente precisa entender que tudo é uma experimentação. Eu sou um ser humano em construção, não posso me engessar no que esperam de mim”. Iza explicou como a validação externa é uma armadilha tóxica para a criatividade: “A partir do momento que você condiciona seu trabalho à validação dos outros, o que os outros falam vira uma verdade absoluta dentro da sua cabeça. Eu me sentia muito grata quando eu era validada. Hoje eu tenho um cuidado absurdo com isso porque, se eu acredito na nota 10, eu tenho que acreditar no 0 também”.
A cantora alertou sobre o hábito nocivo de absorver os problemas de um público que frequentemente projeta frustrações nas figuras públicas. “Nem todo mundo faz terapia, então muita gente joga as misérias nos outros”, refletiu Iza. “É um trabalho esquisito você fazer arte se preocupando com o que os outros pensam, e aquilo vira um limite das subjetividades. Tem gente que vai olhar para o seu trabalho e não vai achar incrível, e a partir do momento que você condiciona o seu sucesso à aprovação, o que falam vira verdade”.
A espiritualidade como escudo e a fé intransigente
Para Alcione, a blindagem contra as energias ruins do mercado e do preconceito sempre teve um único endereço: a religiosidade e a fé absoluta. A Marrom, que exibe com orgulho as suas guias e devoções, detalhou como a relação espiritual pauta todas as decisões da sua vida, muito além de qualquer contrato de gravadora ou cachê milionário.
“Eu sou uma pessoa que não faço nada sem falar com Deus antes, sem pedir permissão. Não sou beata que está na igreja todo dia, nem vou à igreja. Mas o meu pensamento sempre vai a Deus quando quero agradecer, quando quero pedir alguma coisa”, ensinou a lenda. Com a sabedoria acumulada em quase seis décadas de palco, ela dividiu um conselho poderoso: “Se você quer muito uma coisa, peça que venha com a graça de Deus. Se você quer muito uma coisa e essa coisa não vem para te fazer o bem, peça que venha com a graça de Deus”.
Esse direcionamento espiritual ressoou profundamente com a visão que Iza construiu para a sua própria carreira. “Onde é que você vai buscar a força do bem para mover a tua vida quando está mais difícil?”, indagou a jovem artista. “Eu busco isso nas mulheres que são importantes na minha vida. Na minha mãe, nas minhas tias. Eu busco referência nas mulheres que eu admiro. E eu também tenho uma relação com a minha fé que me move. Se não fosse isso, eu não estava aqui”.
Os bastidores com Zeca Pagodinho e o respeito pela política nacional
Apesar da densidade e do peso das questões raciais e psicológicas levantadas, o painel também abriu espaço para a descontração genuína e histórias hilárias dos bastidores da música popular. Quando questionada sobre a arte de manter amizades e colaborações ao longo de tantos anos de estrada, Alcione elegeu Zeca Pagodinho como o personagem mais peculiar e amado do seu círculo íntimo de amizades, descrevendo o desafio maravilhoso que é trabalhar com o sambista de Xerém.
“Cantar com Zeca não é mole não”, brincou Alcione, com um sorriso largo. “Quando tem festa lá em casa, sabe que horas ele chega? Ele chega 7 horas lá em casa. Daqui a pouco eu estou olhando para ele e ele diz: ‘Eu quero ir embora’. Chegaste agora, Zeca! É muito engraçado. Trabalhar com o Zeca e com o Aragão está sendo um aprendizado para mim também. Eles têm um repertório excelente. É uma diversão trabalhar com eles”.
A autenticidade de Alcione também se estendeu à sua visão sobre o atual cenário sociopolítico do país, onde ela não hesitou em tecer elogios diretos ao Supremo Tribunal Federal, gerando aplausos acalorados da plateia progressista que lotava o auditório da Rio2C. “Eu gosto do careca”, disparou, referindo-se ao ministro Alexandre de Moraes. “Gosto demais do Alexandre de Moraes. Botou o negócio para frente. Aquele machado que estava engasgado. Eu gosto muito dele, foi me cumprimentar. Fiquei muito feliz”.
Inovação, tecnologia e a recusa da mecanização da arte
O avanço das tecnologias e da Inteligência Artificial, pauta onipresente em todos os outros painéis do evento, foi abordado sob uma ótica bastante crítica pelas duas artistas. Para IZA, a inovação não pode, em hipótese alguma, desumanizar o processo criativo. Questionada sobre a criação de seu aguardado novo projeto de estúdio, que promete explorar ritmos inéditos em sua discografia, ela garantiu que a base continuará sendo humana.
“Eu adoro tecnologia, mas esse disco vai ser feito muito humanamente”, cravou a cantora, adiantando detalhes exclusivos: “Teremos reggae, tenho certeza disso”. Ela explicou que deseja preservar a imperfeição que torna a música relacionável: “Você quer que as pessoas entendam esse processo, que cada faixa foi ouvida e que a pessoa consiga visualizar cada mão humana, cada processo que passou ali por pessoas. Isso não é uma declaração contra a tecnologia, mas é como você quer olhar a tecnologia de outra forma. É um conforto que eu estou buscando”.
Para endossar a importância da gravação orgânica, a popstar relembrou o estranhamento que certas produções clássicas geravam e que hoje são tidas como brilhantes justamente por suas falhas. “Isso é bonito quando a gente escuta um CD do Bob Marley, ou algum álbum antigo dos Rolling Stones, você escutava uma estranheza que a gente enxerga como artística, mas na verdade era só uma coisa muito humana ali, uma falha que virou estilo, virou coragem”, detalhou IZA.
Passagem de bastão: O legado inegociável da mulher preta na música
Caminhando para o encerramento da masterclass, a atmosfera foi dominada por um sentimento de profunda gratidão e respeito mútuo. IZA resumiu a experiência de dialogar com o seu grande pilar criativo como uma aula Magna sobre integridade artística e proteção pessoal. A nova geração não deve esquecer que a base para enfrentar qualquer ventania merc
