Opinião

Elza Soares transformou a dor em resistência

Foi como um sopro. Elza Soares morreu nesta quinta-feira (20), aos 91 anos, de causas naturais em sua casa no Rio de Janeiro. Eleita como a ‘voz do milênio’ pela BBC, a cantora viveu de forma intensa e sempre trouxe mensagens fortes em suas canções.

Elza não teve uma vida fácil. Filha de uma lavadeira e um operário, foi obrigada a se casar aos 12 anos com um amigo do seu pai, onde sofreu violência doméstica e sexual. Virou mãe aos 13 e aos 15 perdeu seu segundo filho de fome. Aos 21 anos ficou viúva e ainda teve uma filha sequestrada. Apesar da dor, a cantora não se deixou abater e transformou o sofrimento em músicas fortes e de resistência, com letras a favor dos direitos das mulheres e contra o racismo.

Em 2015, Elza lançou o disco “A Mulher do Fim do Mundo”, elogiado por público e crítica. Tive o privilégio de assistir ao show deste álbum, o primeiro apenas com músicas inéditas. Foi emocionante ouvir aquela voz potente, apesar do aparente corpo debilitado, com a cantora sentada o tempo todo. O público cantou todas as músicas do começo ao fim da apresentação.

No ano passado, eu tive o privilégio de entrevistar Elza por e-mail para a IstoÉ. Ao ser questionada sobre qual o segredo para se manter o vigor aos 91 anos, ela disse: “Me cuido muito. Amo o que faço e me amo acima de qualquer coisa. Não me apego muito a essa coisa de idade não. Digo que é mais uma primavera e pronto.” Elza tinha vários shows agendados para este ano com a turnê “Onda Negra”, junto com seu afilhado na música, Renegado. Infelizmente não deu tempo, mas seu legado permanecerá para sempre.

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