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Ana Cañas celebra afetos e verdades em ‘Vida Real’ e revela bastidores do álbum

Foto: Divulgação

A maturidade feminina sempre é um momento de celebração. Quando essa sensatez é transformada em canções, o resultado surpreende a autora da obra, o ouvinte e o entorno. Em Vida Real, de Ana Cañas, as 11 faixas inéditas apresentam esse caminho. Nas palavras da artista, este é um projeto sobre “as infinitas possibilidades da perenidade”. O álbum chegou às plataformas de música hoje, 04 de abril.

A autonomia artística da cantora e compositora atinge um novo patamar no álbum. E não é para menos. Após a bem-sucedida turnê Ana Cañas Canta Belchior, com uma série de 180 shows que conquistou público, crítica e até mesmo a família do lendário cantor cearense, Ana solidificou seu talento e versatilidade. Todas as canções trazem a assinatura da artista, com exceção de O Que Eu Só Vejo Em Você, de Nando Reis.

Com reforço de Dudu Marote, um dos mais influentes produtores musicais do Brasil desde os anos 90, responsável por hits de Skank, Emicida e Baiana System, Ana revela todas as suas facetas em faixas que abraçam o pop e fazem o crossover com sua forte personalidade de trovadora. É um mergulho profundo no universo da artista, com canções autobiográficas que atravessam diferentes fases de sua vida, desde composições feitas há anos até as mais recentes, que vão ao encontro de seu momento atual.

“Esse disco foi gestado há muitos anos dentro do meu coração. É o que melhor me traduz em uma completude de metaversos”, diz a cantora, que trata Vida Real como seu álbum de estreia. “Escuto esse disco muitas vezes e adoro. Nunca tinha experimentado essa sensação. Tem a Ana dos violões, a Ana da gaita, todas as Anas estão ali”, completa.

O álbum de Ana é uma verdadeira viagem pela sua vida e experiências, começando com a faixa-título Vida Real, que retrata sua vivência em um pensionato, cercada por desconhecidos. A gaita presente nessa música realmente se destaca, adicionando profundidade aos versos reflexivos. O álbum se encerra de forma tocante com Do Lado de Lá, uma homenagem ao irmão que morreu em 2013.

E ainda inserida nessa aura de “vida real”, a cantora trouxe Ney Matogrosso para Derreti, Ivete Sangalo para Brigadeiro e Café e Roberta Miranda para Amiga, Se Liga, criando uma diversidade de estilos e emoções para o projeto. É uma obra que reflete não apenas sua trajetória, mas também suas conexões com outros artistas sempre admirados por ela.

Quero Um Love é uma faixa que se destaca por ter sido criada durante o processo de gravação do disco. Com influências de reggae e piseiro-pop, a música expressa os sentimentos da artista em um relacionamento recente. “Eu estava há muito tempo sem namorar ninguém e, nessa relação, eu me abri mais e permiti que a pessoa fizesse parte da minha vida como um todo. Então, a canção versa sobre permitir camadas mais profundas, entrelaçamentos e comprometimentos maiores. Relato isso ipis litteris”, explica Ana.

O extenso processo de Vida Real, realizado no decorrer de 14 meses, encontra ressonância nos versos de Blowin in the Wind, de Bob Dylan, que Ana tem forte identificação: “Quantos mares precisará uma pomba branca navegar antes de dormir na areia”. As inúmeras jornadas de Ana Cañas em busca do real finalmente culminam em uma narrativa que transporta o ouvinte para um universo de sonhos, paixão e ritmo.

Confira a entrevista com a cantora Ana Cañas:

Vida Real marca um novo patamar de autonomia artística para você. O que esse álbum representa em sua trajetória?

Pra mim, “Vida Real”, são os afetos e os sentimentos. Não tem nada mais real, perene e bonito do que isso. As canções são todas autobiográficas, são situações que vivi mesmo. Seja pela vulnerabilidade do pensionato ao lado de profissionais do sexo (que muito me ensinaram sobre empatia e não julgamento), a perda de um irmão há 12 anos e também amores vividos ou não. Essa é a amálgama do disco.

Você mencionou que esse disco foi “gestado há muitos anos dentro do coração”. Como foi o processo de composição e escolha das faixas?

A escolha se deu pelo tema, de puxar a verdade vivida da vida. Seja ela dolorosa, alvissareira ou emocionante. As canções se amalgamaram sob essa ideia!

O álbum traz um forte aspecto autobiográfico. Qual foi a faixa mais desafiadora de escrever e por quê?

Acho que “Vida Real”, por trazer a história mesmo da minha vida (o momento de muito vulnerabilidade, sobrevivendo de entregar panfletos nos faróis em São Paulo) e a do meu irmão, “Do Lado de Lá” – que foi composta em 2013, quando ele faleceu.

Em Vida Real, há colaborações com Ney Matogrosso, Ivete Sangalo e Roberta Miranda. Como essas parcerias surgiram e o que cada uma trouxe para o projeto?

São 3 artistas que eu admiro muito, em diversos ângulos! Ney é um bardo da vida total, Ivete uma comunicadora sem igual – real, real mesmo – e a Roberta é uma precursora da composição num meio absolutamente masculino. Todos eles foram escolhidos por completo respeito, admiração e amor. Os 3 são “reais” – sem afetações, são próximos de seus públicos e conectados ao que mais importa: o afeto!

A faixa Quero Um Love tem influências de reggae e piseiro-pop e reflete um momento pessoal seu. Como foi transformar essa experiência em música?

Eu fiz quando namorava e estava bem envolvida. Permiti que a pessoa fizesse parte da minha vida como há anos não conseguia. Rompi barreiras e medos e foi muito legal voltar a confiar em alguém novamente depois de muitos anos cabreira. A canção é sobre isso.

Seu álbum anterior foi um tributo a Belchior. Como essa experiência influenciou sua abordagem neste novo projeto?

Acho que o grande legado do Belchior na minha vida é o aprendizado da dimensão metafísica da arte e da música como um todo. A responsabilidade com a poética e a escolha pela verdade, por mais dura que seja. O conceito “Vida Real” é entremeado pela vivência dos 180 shows que fizemos, com certeza. Belchior é um gênio, sempre levarei com muito orgulho e amor tudo que vivi e aprendi através de suas músicas.

O disco se encerra com Do Lado de Lá, uma homenagem ao seu irmão. Como a música ajudou a traduzir esse sentimento?

A dor faz parte da “Vida Real” e a morte também. Transcrever esse tipo de emoção é um desafio grande, mas também, muito gratificante. Porque se alguém a ouvir e se conectar, se confortar… vai ter valido a pena! As dores nos unem, curiosamente, mais do que as alegrias.

Você se referiu a Vida Real como se fosse um álbum de estreia. O que ele tem de diferente dos seus trabalhos anteriores?

Acho que a maturidade mesmo – seja pela idade, pelas vivências com o Belchior e também pelos profissionais com quem trabalhei. Foram 14 meses em estúdio, Dudu Marote e Fernando Furtado tiveram muita importância e peso nas escolhas e decisões. São muito experientes e pessoas maravilhosas. Foi um grande diferencial o processo de feitura do disco desta forma em relação aos discos pregressos. Eu tô muito feliz com ele e realizada artisticamente como nunca antes!

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