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PopEntrevista: Ohana Azalee, a Rainha Barbada

Foto: Divulgação/Lucas Gibson

Vinte drag queens de todos os estilos, tipos e tamanhos, um batidão para ir até o chão e muito close certo. É nesse clima que Ohana Azalee lança o clipe de “Piridrag” nesta segunda, 15, o primeiro hit da cantora e compositora, que, oposta a uma de suas inspirações, a Pabllo Vittar, passa longe do estilo princesa e deixa marcado seus traços masculinos, assumindo o título de Rainha Barbada. 

Conheça Ohana Azalee, drag queen andrógina que se assume como ‘Rainha Barbada’

Ohana Azalee. Foto: Divulgação/Lucas Gibson

A música brinca com uma certa “concorrência” de atenção amorosa, mas nada de briga. E o clipe, com edição e fotografia eletrizantes, segue o mesmo estilo.

O PopNow foi conhecer a artista, e bateu um papo bastante descontraído com artista, famosa com sua irreverência na cena drag carioca. Confira: 

PopNow: Como e em que momento você decidiu que queria fazer drag? 

Ohana Azalee: Foi bem complicado, na verdade. Quando eu decidi que eu iria criar a Ohana, eu estava em um momento de descoberta. Não de sexualidade, mas de descoberta da minha própria personalidade. Eu era uma pessoa de um  pensamento meio pequeno, de pensamentos preconceituosos e eu queria tirar isso da minha cabeça. Eu comecei a conhecer algumas pessoas que trabalhavam com desconstrução, que tinham contatos com grupos de militância, e comecei a mudar. Tanto é que aquele pensamento, de repente, que eu tinha, era um pensamento que não servia para mim, para minha vida, e eu precisava mudar aquilo, mas não sabia como. E aí uma vez, eu estava com amigos na Lapa, e a gente acabou insultando uma travesti que estava lá. Na hora eu achei muito engraçado. Na verdade, não fui bem eu quem fez a brincadeira, mas na hora, sabe? Quando você estava no meio, eu já sabia que era errado, eu já andava com uma galera que já me mostrava as coisas que eram legais e não eram de fazer e, sei lá, por uma pressão eu acabei rindo e achando engraçado, e isso me deixou mal. Um pouco depois, passei um tempo com aquilo na cabeça pensando que eu precisava fazer alguma coisa para mudar aquilo até em mim, e aí um amigo meu que fazia drag havia comentado que já havia passado por uma situação constrangedora, com uma pessoas que estavam hostilizando ele por estar montado, foi quando eu percebi que as pessoas não entendem a diferença de drag para trans. Foi quando eu pensei: é isso, eu quero sentir como é estar do outro lado. Foi um processo de autoconhecimento.

PopNow: O movimento drag têm um histórico de ser visto como marginalizado, um paradigma que o movimento tenta quebrar, as pessoas não sabem diferenciar o que é um artista drag, um transgênero, ou um travesti, como você vê o processo e como foi para você?

Ohana Azalee: Eu acho que esse processo de conhecimento, de entendimento e de “desguetificação”, se é que essa palavra existe – eu estou criando agora -, de tirar do gueto, ela está acontecendo muito lentamente até mesmo dentro da comunidade LGBT, aos poucos, têm dado mais visibilidade para o movimento drag queen, para o movimento trans, e isso se reflete também na sociedade. Eu acho que a sociedade está entendendo, aos poucos, a entender e respeitar, e aí a gente pôde também credibilizar artistas como Pabllo Vittar, o próprio Silvério Pereira, fazendo um trabalho incrível, autores que têm cada vez mais inserido personagens LGBTs… Eu acho que a gente costuma a repelir aquilo que a gente não conhece, e o que muita gente vê como prejudicial, como o caso de todas as novelas terem um personagem LGBT, eu vejo como um avanço. Uma forma de mostrar para a sociedade que nós estamos aqui e que nós somos seres humanos. Que por trás de todo personagem que a gente cria, existe um humano, seja ele homem ou mulher, até porque a arte drag não têm gênero. Esse é um processo que aconteceu comigo, e que agora eu consigo ver sendo refletido na sociedade, e isso é incrível.

PopNow: O nome Ohana é diferente, e veio do desenho “Lilo & Stitch”, da Disney. Como o nome surgiu?

Ohana Azalee: Eu nunca tive muita proximidade com minha família biológica, porque eu venho de uma família muito cristã. Meu pai é sacerdote dentro da Igreja, então eu queria um nome que representasse a família que, na verdade, eu acabei criando para mim, que são os meus amigos e as pessoas que estiveram comigo, que me ajudaram e que me acolheram. Eu saí de casa aos 16 anos. Eu era bem novo, fui convidado a me retirar, e então eu contei com as pessoas que eu tinha ali, e foram as pessoas que se tornaram a minha família. O nome é como se fosse uma homenagem aos amigos que estavam do meu lado. A Ohana nasceu para eles e por eles.

Ohana Azalee. Foto: Divulgação/Lucas Gibson

PopNow: Agora a gente vê uma evolução do seu estilo drag, com o lançamento de “Piridrag”, seu primeiro single, e a produção do seu primeiro EP, como foi a ideia de entrar para o ramo musical?

Ohana Azalee: Eu sou músico desde criança. Eu estudei música desde muito pequeno. Eu acho que qualquer artista ele já nasça artista, não acredito muito em uma arte que é construída com o tempo, então a pessoa têm uma aptidão e ela trabalha isso. Quando você é uma criança ou jovem cristã, e você sente uma necessidade de desenvoler seu lado artístico, a primeira arte a qual você é apresentada é a música, então desde pequeno eu estudei música; estudei canto popular, canto lírico, piano, e então os arranjos musicais sou eu quem faço. Eu já tinha um cana de covers [no YouTube], onde eu cantava e tocava como drag, depois acabei abandonando a ideia para fazer um trabalho mais autoral. A música já existia antes da drag, então quando a Ohana nasceu, e eu comecei a entender que eu podia fazer arte, eu procurei fazer o que me deixava mais confortável, e foi quando eu pensei que eu ia fazer música. Quando eu comecei a Pabllo [Vittar] ainda não estava tão famosa, acho que ela estava começando a lançar alguma coisa, e eu ainda não a conhecia, mas quando ela chegou, fazendo um trabalho incrível, acabou me dando mais força de investir nessa carreira, foi quando eu criei o canal de covers, mas a música já existia há muito tempo.

PopNow: O quê você pode adiantar desse projeto [o EP]? Qual é o estilo do trabalho e o que “Piridrag” têm de diferente?

Ohana Azalee: Há muitos projetos, na verdade. No momento, já estamos começando a ensaiar o show. Ainda não há nenhuma data oficial, porque a gente está focado no EP, que vai ser lançado no final de fevereiro ou início de março, então até lá, a gente quer aproveitar o tempo para trabalha toda a estrutura dos shows. Como artista, a gente sempre fica incomodado, e querendo apresentar algo inovador, então estamos aproveitando o tempo para a preparação dos figurinos, coreografias, nosso DJ, o DJ Bolt, também está preparando versões diferentes de cada música do EP, então a gente pretende criar uma estrutura para apresentar o trabalho da melhor forma possível. A ideia não é fazer o mesmo. Sobre estilo, eu escolhi um pop/funk pelo mesmo motivo. Como eu venho da música clássica, o funk, para mim, é um desafio. Até porque eu não sou um exímio dançarino, e segundo que é uma quebra de preconceitos que eu tinha dentro de mim, como músico e como uma pessoa que vêm de um ambiente retrógrado, machista. Fizemos questão de colocar bailarinos homens para evitar qualquer tipo de objetificação do corpo feminino, e também para mostrar que o corpo masculino pode ser um objeto – não que necessariamente seja essa a mensagem que a gente quer passar -, mas que a gente mostre a questão de que a mulher não é um objeto, não é um produto a ser vendido. Tudo nesse EP servirá como uma quebra de paradigmas para mim, desde as letras da música, até a forma em que serão apresentadas.

BREVE EM JANEIRO – PIRIDRAG

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PopNow: Quão envolvido na produção, tanto das letras, quanto das músicas, e na construção do trabalho, você se encontra? Você é daqueles que dá palpite, ou deixa sua equipe fazer o trabalho?

Ohana Azalee: Eu prefiro estar envolvido em tudo. É como um filho, então a gente quer que o trabalho fique bonito, que o resultado seja ótimo, então eu me envolvo em tudo. E principalmente porque eu não tenho um orçamento muito alto, então o que eu consigo fazer, eu faço. O arranjo das músicas, por exemplo, fui eu quem fiz. O clipe de “Piridrag”, o roteiro também é meu e aí chamei um amigo, que é diretor do Multishow para fazer a direção e edição do trabalho, mas o conceito do clipe é meu, a letra da música… Acho que o envolvimento é em 100% do trabalho. O figurino, a maioria fui eu quem desenhou, e mandei para a Sodoma, que é uma drag e costureira super conhecida.

PopNow: Quem te inspira enquanto drag?

Ohana Azalee: Neste momento, a grande inspiração do meu trabalho são as drags que estão colocando a cara agora. Não apenas as famosas. Eu poderia citar uma lista de drags que me inspiram absurdamente, mas que não são artistas conhecidas do grande público, principalmente por estar inserido nesse movimento, quanto as pessoas têm talento. Minha grande inspiração, neste momento, são as drags que fazem o movimento acontecer nos guetos. MiamiPink, que é a idealizadora e apresentadora do “Queens O Concurso”, que é uma pessoa que dá oportunidade para quem nunca se montou na vida. Nomes como a Karina Karão, que faz a cena acontecer há bastante tempo no Rio de Janeiro, Susy Brasil… E aí a gente acaba exaltando as grandes popstars do Brasil como a Pabllo [Vittar], a Aretuza [Lovi], a Gloria Groove, que acabou de fechar contrato com a Sony.

PopNow: Quem é a Ohana?

Ohana Azalee: Eu definiria a Ohana como “Transformação”. Ela é a minha transformação, e transformação do conceito de drag em vários motivos, por não ser magra, por ser barbada, por ter pelos na perna e no peito, por ser negra… e por existir. A Ohana nasceu pra me transformar. Não querendo ser pretensiosa, ela têm uma questão de quebrar paradigmas. A simples imagem da Ohana já proporciona isso.

 

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