Detonautas Roque Clube. Foto: Reprodução/ Instagram (@detonautas)
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‘É preciso que exista renovação’: Tico Santa Cruz fala sobre o momento atual do Detonautas e do rock’n’roll

Foto: Reprodução/Instagram (@detonautas)

*Por Amanda Nunes.

Edição: Daniel Outlander.

A banda de rock brasileira Detonautas Roque Clube, uma das mais famosas do país e referência do gênero, completou mais de 20 anos de atividade e no ano passado, lançou o sexto álbum de estúdio, o “VI”, que é uma comemoração para estas duas décadas de trabalho e faz continuidade a uma era menos “agitada” do grupo, com um rock mais “melódico” e aberto a novas possibilidades de arranjos e referências.

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Os novos rumos musicais do Detonautas estão ainda mais evidentes após relançarem a canção “Por Onde Você Anda?” com a participação do cantor sertanejo Lucas Lucco e “Você Vai Lembrar De Mim”, com a sambista Alcione, que ainda não foi liberada.

Em entrevista exclusiva para o PopNow, Tico Santa Cruz, vocalista e fundador da banda conta como está sendo esta nova fase, a adaptação ao cenário musical atual que está completamente diferente do início da carreira, os relançamentos das canções do último álbum e muito mais!

PopNow: Qual é o objetivo que a banda busca alcançar ao fazer parcerias inusitadas, como com o Lucas Lucco e a Alcione? Novos nichos de público ou algo do tipo?

Tico:O objetivo é criar novos vínculos, com outros públicos. Trazer para perto outras referências e quebrar os paradigmas de que o Rock não pode se misturar com estilos populares. O Lucas e a Alcione fazem parte de gêneros diferentes, porém se propuseram a experimentar conosco este formato e funcionou muito bem. Ficamos muito satisfeitos com o resultado. Ainda esperamos contar com outros artistas de outros segmentos. A banda também fez uma parceria com o Leoni, que é um ícone do Rock nacional. Eu fiz uma poesia e enviei a ele, que conseguiu captar o espírito e musica de uma forma linda, o resultado valeu muito a pena.

PopNow: E da onde surgiu a ideia das parcerias?

Tico: A ideia surgiu de uma observação nossa da dinâmica do mercado musical, respeitando nossa essência e nosso tempo também, pois hoje existe uma necessidade enorme de se lançar material novo a todo momento. Nós entendemos que ao invés de lançar um material novo, poderíamos regravar o disco que colocamos na rua no ano passado com esses parceiros, e isso deu uma vida maior ao trabalho.

PopNow: Ah, então realmente terá regravação do álbum “VI”! Pode nos dar pistas sobre os próximos convidados?

Tico: Queremos um artista de Hip Hop para somar com a gente na “Canção do Amigo”. Fiz um convite ao Hyldon para colocar voz na regravação que fizemos de “Na sombra de uma árvore”. Chamei o Rogério Flausino do Jota Quest pra participar em “Nada vai me derrubar” e estamos pensando num Dj para fazer um Remix de “Brother”. Até o fim do ano esperamos ter realizado todas essas parcerias.

PopNow: A música “Canção do Amigo” apresenta um toque de nostalgia. Os ex-membros da banda Rodrigo Netto, Tchello, Dj Cléston, entre outros, tiveram influência na composição da letra?

Tico: Não. Essa música foi feita para um grande amigo de infância. O nome dele é Wagner Alexandrino. Wawa Black, é o apelido. Hoje ele mora no Espírito Santo e eu tenho imenso carinho e respeito. Nos vemos pouco, mas como a música diz, é o amigo que guardo no peito, com todas as virtudes e defeitos. O refrão exala toda a humanidade de nossa amizade sincera. Ele quem me ensinou a tocar violão e que foi uma referência na minha vida num dos momentos mais difíceis que atravessei . Foi uma homenagem feita em vida.

PopNow: Às vezes, fica a impressão de que o cenário do rock nacional não tem sido tão próspero como foi no início do século, que foi quando vocês começaram. Bandas que marcaram toda uma geração como O Rappa e Forfun chegaram ao fim. Vocês acham que o rock perdeu espaço nas casas? Se sim, o que acham que falta para retomar essa ‘popularidade’?

Tico: O Rock hoje representa menos de 5% do mercado. Nem bandas internacionais estão conseguindo ocupar os espaços que havia antes. Acredito que faça parte de um ciclo natural. Contudo, a internet mudou muito a forma de consumir música. Aparentemente as pessoas não estão mais preocupadas com os discos, com a história do que há por trás da concepção de um álbum, da relação afetiva que existia antes quando o público e o artista compartilhavam de uma história a cada lançamento. Hoje as pessoas ouvem muita música pelo celular, pelos computadores, usando plataformas de streaming, conhecendo muitos artistas ao mesmo tempo por playlists, e por outro lado os artistas parecem ter a necessidade de lançar um single por mês. O Rock não tem essa dinâmica e não tem esse capital também. Pelo menos, não o Rock Brasileiro. A linguagem mudou muito. Parece que o Rock envelheceu, encaretou.” Se tornou conservador, elitista. Isso afasta da juventude e o joga entre um público mais velho. Público esse que também não está mais tão disponível para frequentar casas de shows em todos os finais de semana. Logo os espaços diminuíram sim, as rádios não tocam mais, a TV ignora, e isso se reflete na formação de um público novo. Logo, “é preciso que exista um movimento de renovação”, com bandas novas, artistas que saibam se comunicar com a juventude, para que se restabeleça esse vínculo novamente.

Detonautas Roque Clube. Foto: Reprodução/ Instagram (@detonautas)

Detonautas Roque Clube. Foto: Reprodução/ Instagram (@detonautas)

PopNow: Pra você, quais são as formas de resistência para manter o cenário do rock no Brasil?

Tico: Fazer shows e procurar estar atento às linguagens novas. Criar outras formas de comunicar ao público sua música. “Conseguir viver de Rock no Brasil hoje é para poucos”.

PopNow: Quais os próximos passos do Detonautas?

Tico: Desejamos fazer pelo menos um EP com músicas inéditas. Tenho procurado novas parcerias para compor e para trabalhar na parte de produção do próximo álbum. Queremos andar para um universo onde o Rock e a música eletrônica que já está presente em parte do nosso repertório, se encontrem numa nova levada para as canções. Vamos experimentar esse caminho.

PopNow: O primeiro CD do Detonautas tem uma pegada mais punk rock, que é um pouco diferente dos trabalhos recentes de vocês. Quais são as inspirações que mais tem influenciado vocês atualmente? Pretendem voltar a gravar músicas no estilo do começo da carreira?

Tico: A discografia do Detonautas é muito variada. Nós temos discos que vão do Reggae, Rock, Hardcore, Baladas românticas ao HardRock e tudo mais que se possa acrescentar em camadas e cenários que influenciam nossa carreira. Temos uma diversidade muito grande de canções, isso é ótimo, porque não soa cansativo e nem monocromático. Queremos andar ainda mais com essas misturas, então preferimos o caminho da imprevisibilidade. Acreditamos que dessa forma temos mais liberdade para criar.

PopNow: Qual artista seria a parceria dos sonhos? E por quê?

Tico: Todos os artistas que participaram com a gente em algum momento de nossa carreira fazem parte desse sonho. Não existe um artista somente. Acredito que as parcerias devam ser naturais e produto de afinidades em comum. Por isso deu certo as que fizemos.

PopNow: Para finalizar, vocês já ganharam muitos prêmios importantes e têm uma carreira consolidada. O que ainda falta alcançar?

Tico: “Queremos longevidade. Viver de música a vida inteira.” 

Confira o último álbum do Detonautas,”VI”:

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